C R Ô N I C A S

Os acontecimentos históricos narrados nas crônicas seguem a ordem em que ocorreram. Algumas são obra de testemunhas oculares ou contemporâneas, mas outras são escritas muito tempo depois dos eventos que descrevem e podem ser muito fantasiosas. Os eventos abrangidos por uma crónica podem referir-se a uma região, um país, o reinado de um determinado rei (por exemplo a Crónica de Jaime I ou a Crónica de el-rei D. João I) um evento importante (por exemplo a crónica da tomada de Constantinopla de Godofredo de Vilearduin), ou a vida de uma personalidade importante (por exemplo a Crónica do Infante Santo D. Fernando ou a Crónica do Condestável).

Na Europa, as primeiras crónicas foram escritas em latim, entre a Antiguidade e o início da Idade Média. Ao longo da época medieval houve uma tendência a que os cronistas adotassem a língua vernácula de cada região para a redação de suas obras. Grandes crónicas foram redatadas em francês, alemão, castelhano, catalão e outras línguas.

Em Portugal, a produção de crónicas em língua portuguesa tomou grande impulso no século XIV com a Crónica Geral de Espanha de 1344, da autoria de Pedro Afonso, conde de Barcelos. No século XV o principal cronista foi Fernão Lopes, autor de diversas crónicas dedicadas ao reinado dos primeiros reis portugueses. (WIKIPÉDIA)

 

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FEIO    E   BONITO

Como é difícil ver a beleza e a feiura em ato unilateral ou opinião própria.   Aliás, deve ser instintivo essa questão de opinar ou melhor em ter alguma opinião sobre o belo e o não belo. 

Assim,  encontramos uma linda mesa

 

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cachorros bonitinhosResultado de imagem para cachorro mais bonito do mundo 2012

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TUDO É VÁLIDO QUANDO SE GOSTA !  E  PRONTO !   TUDO RESOLVIDO !

PAPO DE BÊBADO

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Não estou falando daquele  bêbado que caiu na calçada e só vai acordar quando um cachorro lhe lamber a boca, mas daquele bêbado que já está alto e tenta de qualquer forma resolver os problemas do mundo, falando do BNDS, Banco Central, Governador e Presidente, além, lógico, do Prefeito da Cidade,  mas sim,  onde a cachaça está sendo fartamente consumida em casa, no boteco ou pescando na beira do riacho, acompanhada do amendoizinho.

É quando alguém bebe, raramente está sozinho e o pagamento do pedágio sempre é boa matéria, acompanhado,  recentemente, por radares por toda a cidade, ou seja, sempre violando o direito de ir e vir ou permanecer no mesmo lugar, bem mais típico para os embreagados.

Ah!   O preço do combustível e dos alimentos não vai ser colocado de lado num bom bate papo de início do primeiro gole.  Mas, na minha casa, na minha rua, no meu bairro, são por demais valiosos em desenvolvimento eficaz de um bom papo de bêbado, pois dá para falar de igualdade, de carros e suas marcas, da pobreza e dos ricos que bebem o bom uísque e vinhos nobres, e assim mesmo não deixam de ser bêbados.

Tem algo muito triste no mundo do álcool, e a Lei Seca esteve rondando o planeta e não me deixando mentir, virtude rara não encontrada nos alcoólicos, a verdade!  

Mas como quase  toda piada de bêbado é sempre muito atraente e faz rir, vou deixar uma das que mais gostei :  “Um bêbado chegou próximo ao Planalto, mas próximo demais, e quando ia deixando sua bicicleta por lá, já avistou um segurança que lhe proibiu essa ação alegando que ali era local que transitava Presidente, Ministros, Governadores, Deputados,  Senadores e muitos Prefeitos. Porém, ao ver o grau do risco ofertado pelo Segurança, tratou logo de responder que não tivesse nenhuma preocupação com o fato, porque, 

__  A bicicleta tem cadeado”.

A verdade é que quem bebe vive menos !  preocupado, triste, solitário ou puto da vida. Os cientistas estão estudando os diversos tipos de bêbados existentes em torno do mundo, estão chegando a apenas quatro categorias, mas achamos que está muito pequena essa classificação.

Finalizando e com o grande efeito de nos alegrarmos com os diversos papos de bêbados, não podemos deixar de louvar ao “A.A” que se preocupa muito mais com esses desafortunados seres que vivem em torno de um copo, do que....você vai poder responder melhor ...

 

                         Esmeraldo, o garçom

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Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o.  Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e, só então, deslocou a sua visão a outra mesa (aí que descobri que, quando chamamos um garçom e parece que ele não vê, às vezes, está vendo e finge que não vê).  Acostumado com os tipos e pela cara, sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado.  

Esmeraldo, educadamente, perguntou:                                                                                                                                        __Como é o seu nome, senhor ?   

O cliente, mais irritado ainda, respondeu:                                                                                                                                            __ Jonas.                                                                                                                                                                     

__ Pois é, senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas  __ disse-lhe Esmeraldo.                                                   

__ A minha função aqui é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente, não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então, apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja, e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, o de produção, com o que o senhor há de concordar, seria antiético.  Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado ?  Sua cerveja chegou quente ?  O refrigerante diet  da sua esposa  e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos ?  Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até sua mesa ? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores ? O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro,  mas não no serviço de distribuição.  Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro  ou, então, o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem de ouvir essas reclamações, não eu.  Aliás, aqui para nós, acho que o senhor tem de reclamar com ele sim, porque esse cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui, do lado de fora, nem sabendo o que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isso, me chacoalham ? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto, seu Jonas ?  Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois alguns clientes já reclamaram.  Lá está o seu Manoel. "Seu Manoel !  Seu Manoel,  faz o favor !"  Enquanto o senhor Manoel se aproximava Esmeraldo cochichou para o cliente: 

__ O senhor pode reclamar do que quiser, seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar.  Jonas, mulher e filhos, boquiabertos, olhavam para o Esmeraldo e para o senhor Manoel que, todo solícito, dizia um "Pois não", bem macio. (Autor: Laé de Souza)

A origem do Gênio da Lâmpada

No folclore árabe, os gênios são espíritos que tem poderes sobrenaturais, e aparecem em diversas formas e tamanhos. Podem ser bons ou maus, dependendo de seu mestre. Vivem em lugares inóspitos, como garrafas vazias. Gênio é a tradução usual em português, para o termo árabe jinn. De acordo com a mitologia, os jinni foram criados dois mil anos antes da criação de Adão, e eram possuidores de elevada posição no Paraíso, grosso modo, igual ao dos anjos, embora na hierarquia celeste fossem provavelmente considerados inferiores a eles. Deles é dito serem feitos de ar e fogo. 

Entre os arqueólogos, lidando com antigas culturas do Oriente Médio, qualquer espírito mitológico inferior a um deus é frequentemente referenciado como um "gênio", especialmente quando descrevem relevos em pedra e outras formas de arte. Esta prática se inspira no sentido original do termo "gênio", como sendo simplesmente um espírito de algum tipo. Sendo compostos de fogo, ou ar, e tendo a capacidade de assumir qualquer forma humana, ou animal, os jinni podem residir no ar, no fogo, sob a terra e em praticamente qualquer objeto inanimado concebível: pedras, lamparinas, garrafas vazias, árvores, ruínas etc. 

Na hierarquia sobrenatural, os jinni, embora sejam inferiores aos demônios, são extremamente fortes e astuciosos; e possuem todas as necessidades físicas dos humanos, podendo até mesmo ser mortos, mas estão livres de quaisquer restrições físicas. A palavra árabe jinni deriva do verbo "Djanna", que significa "ser coberto ou escondido", e com o verbo na voz ativa, significa: "cobrir ou esconder". 

Algumas pessoas dizem que jinn, portanto, significa as qualidades ou capacidades ocultas do homem. Outras pessoas alegam que significa seres da selva, ocultos nos montes. Segundo a crença islâmica os gênios vivem na terra, em um mundo paralelo ao da humanidade, do qual podem ir e voltar a vontade, sendo invisíveis aos olhos humanos sempre que desejam. Nem todos os jinni são casos totalmente perdidos. 

De alguns se diz que possuem uma disposição favorável em relação à humanidade, ajudando-a quando precisa de ajuda, ou mais provavelmente, quando isto é conveniente aos interesses do jinn. Na maioria dos casos citados, na literatura e no folclore, eles se divertem em punir os seres humanos por quaisquer atos que considerem nocivos, e são assim responsabilizados por muitas moléstias, e todos os tipos de acidentes. 

Todavia, quem conhecer os necessários procedimentos mágicos para lidar com os jinni, pode utilizá-los em proveito próprio.

A PERUCA

Você há de concordar comigo:  peruca de homem é um negócio que não deu certo. Nada grave, nada pessoal. Tem coisa que dá certo, outras não dão. É normal. Peruca, definitivamente, não deu. Ou você já viu algum homem de peruca sem perceber que era um homem com peruca ?

Acho que os calvos chegados a uma peruca são todos exibicionistas. Sim, porque assim que entram no restaurante, todos olham. E comentam. É um delírio para as crianças. Olha a peruca daquele cara !  São as primeiras a notar. Criança adora ficar olhando para o homem com peruca.  Pode notar.

Eu, pessoalmente, nutro um velho sonho de arrancar a peruca de um carequinha. Mesmo que leve uma porrada em seguida. Quero ver como o sujeito fica ao natural e, mais ainda, com que cara ele vai ficar diante da multidão que, claro, irá me aplaudir.
Fui olhar no dicionário agora e quem usa peruca nem nome tem. Peruqueiro é quem fabrica aqueles medievais ornatos.

Será que eles __ os que usam __ acham que enganam alguém ? Sei não, eles estão sempre com cara  de quem está abafando (a calvície, é claro). Nada com os calvos ou semicalvos, meu senhor. Estou falando de peruca.

Conheço muitas histórias envolvendo perucas. Mas a mais interessante delas, foi com uma velha tia. Teve aquela doença em que caem todos os pelos e tinha uma (como será o coletivo de peruca ? perucateca ?) porrada de perucas. O fato se deu no dia do enterro do meu tio, marido dela.

O caixão descendo, ela chorando copiosamente (adoro a palavra copiosamente) ali, à beira do túmulo. Eis que, de repente não mais que de repente, cai uma chuva. O cavalheiro ao lado abre seu guarda-chuva para proteger a jovem (apesar de seus setentinha) viúva. No que abre, a vareta engancha na peruca e a eleva. Do outro lado, sobrinhos e netos veem a mulher sem a peruca, careca. Começam a rir. Aquilo vira uma balbúrdia. O caixão descendo.

Alguém, de um bom coração, foi lá, desenroscou a peruca e ajeitou na  cabeça da velha senhora que chorava com ou sem o artefato. Só que a pessoa colocou meio torta. E aí vinham todos para cumprimentar, para desejar os meus sentimentos e levava a mão à cabeça da perucada, dando uns tapinhas, ajeitando os lados. Para quem não acreditou, foi filmado. Ninguém nunca viu o filme, mas que foi, foi.

Mas voltemos às perucas masculinas. Acho que elas são tão diferentes do resto de cabelos que o cidadão tem, porque não são lavadas diariamente. Você acha que o sujeito lava aquilo todo dia ?  Que dá para a empregada lavar ? E depois, pendura no varal ?  Que leva ao cabeleireiro ? Ela está sempre encorpada, empapada, ensebada mesmo. Um horror !  E os que preferem a peruca repartida do lado, tentando mostrar naturalidade ? Dá até para ver que tem uma rendinha entre ela e o couro cabeludo. Perdão, couro ex-cabeludo.

Só tem uma pessoa no Brasil que usa peruca e ninguém nunca desconfiou: o Itamar Franco, que sempre gostou de se camuflar.  Aquela é bem feita. Tão bem confeccionada que as pessoas nunca olharam para base dela, mas sempre para o topo da pirâmide. E não percebem.

É mesmo preciso ter topete para usar um troço destes. (Revista Vogue, 23/9/2003)

SEBASTIÃO BERNARDES DE SOUZA PRATA

A Igreja não proibia o tráfico de escravos. Afinal, a Inglaterra (grande financiadora do tráfico) devia muito dinheiro ao Vaticano. Não proibia, mas impunha uma condição:  que todos fossem batizados para, em caso de morte na travessia, suas almas não ficarem vagando pelo Limbo. Os ingleses sempre foram muito ingleses, limpando a barra de uma possível culpa. E então cada leva de negros que entrava num navio era batizada em lote. Ou todos se chamavam Joaquim, ou João, ou Pedro, ou José, ou Maria, ou Sebastiana, e assim por diante.

Quando a princesa Isabel acabou com esta vergonha, os escravos mais chegados aos latifundiários da época e que, portanto, não tinham sobrenome, receberam-no daquelas famílias. Foi assim, lá no Triângulo Mineiro, que um negrinho recebeu o sobrenome da minha família. Prata. Este negrinho, escravo do meu bisavô, viria depois a ser pai do Bastiãozinho, ou melhor, Sebastião Bernardes de Souza Prata, ou melhor ainda, Grande Othelo. Com muita honra, meu primo.

Desde pequeno meu pai me contava essa história. Othelo sempre foi o orgulho de todos nós: o primo famoso, umas das maiores unanimidades nacionais, um metro e quarenta de talento internacional. Meu pai, quatro anos mais velho do que ele, lembra-se dele, lá no nosso Triângulo Mineiro, o Bastiãozinho, a vender jornal na rua.

Conheci o primo famoso num restaurante no Rio de Janeiro, o Jangada, em 1975. Grande Othelo estava numa mesa como gostava: bêbado. Alguém disse quem eu era e ele veio até a minha mesa e perguntou  humildemente:

__ A família Prata não acha ruim eu usar o nome dela ?

__ Imagina, Othelo, você é o orgulho da nossa família.

Ele subiu no meu colo e começou a chorar como uma criança. Depois, em pé, equilibrando-se em cima do meu joelho, gritava para todo o bar ouvir:

__ Um boi deste meu primo aqui dá pra comprar este restaurante inteiro.

Minha família não tinha mais bois, mas ele já nem me ouvia. Não me restou mais nada a fazer a não ser chorar e rir, chorar e rir, ali, abraçado com aquele gigante. Ficamos amigos e mais primos do que nunca, a partir daquele dia.

Às vezes me telefonava:

__ Primo, precisamos fazer um trabalho juntos. Um trabalho de ouro, primo !

Fui adiando essa parceria, talvez um pouco temeroso de não estar à altura de tão genial parente.

Voltando de Portugal, onde passei dois anos, um dos meus projetos era escrever a vida dele, desde o tempo do Bastiãozinho. Era este o meu projeto, Luis, para a Companhia das Letras. Fui adiando, adiando....

Esta semana um amigo, o Marinho, me telefonou. Estava fazendo um vídeo sobre o Othelo. Queria umas informações sobre a origem do nome Prata nos documentos dele. O Marinho me disse que ele não se lembrava direito do passado dele. Dizia que tinha uns parentes brancos, mas não se lembrava mais. Marinho, triste, percebeu que ele estava perdendo a memória. Meu livro sobre ele não mais seria escrito, pensei.

Na última vez que estive com ele, no Festival de Gramado, a Manchete nos pediu uma foto juntos. Ele desceu do quarto, muito bem vestido, e me cumprimentou como se não me conhecesse. Mas ficou olhando no fundo dos meus olhos, procurando se lembrar de mim, procurando alguma coisa no seu passado. Não gritou como sempre fazia: primo ! Percebi ali, no frio de Gramado, que estava perdendo o meu primo.

Agora ele morreu. Com convém a um grande artista: em pleno outono parisiense. Mais chique impossível.

Morreu o Bastiãozinho, morreu o Sebastião Bernardes de Souza Prata, morreu o Grande Othelo, morreu este Garrincha talentoso que driblava e encantava a todos no palco, na tela, na televisão, na música popular brasileira. Vai, primo, passe direto pelo Limbo, vá para o Céu, talvez com direção do Orson Welles, fazer Deus rir um pouco. (Estadão, 1/12/1993)

DA IMPORTÂNCIA DO DIPLOMA

Desde que os meus filhos se fizeram entender, coloquei na cabeça deles a importância de se ter um diploma no Brasil.

__ Um homem sem diploma está perdido ! Não é nada !

Eles foram crescendo e quando já poderiam entender a importância do diploma no Brasil, fui logo explicando.

__ O diploma é importante, meu filho, porque se você for preso  tiver diploma, você não fica com os bandidos. Você fica numa sala especial, com geladeira, televisão e telefone, sozinho.

__ Mesmo se for bandido?

__ Mesmo se for bandido. Principalmente. Entendeu? Tendo um diploma __ de qualquer coisa, de qualquer faculdade __, você tem privilégios. Quando você vê aquele bando de gente amassado dentro de uma cela de dois metros, pode ter certeza que ali ninguém tem diploma. Quem mandou não estudar, não é mesmo? Se tivessem estudado, tirado seu diplominha, estariam numa boa.

__ O Lalau tem diploma?

__ Vários, meu filho. Vários.

__ Mas em todo lugar do mundo é assim? É para isso que o diploma serve?

__ Não, claro que não. Só no Brasil. Por isso que tem tanta faculdade sobrando por aí e ensinando porcaria. É para os caras serem presos com o mínimo de educação.

__ Mas é só para isso que existe diploma no Brasil, pá?

__ Claro que não. Serve de decoração também. Quanto maior, melhor fica na moldura e na parede. Se tiver aquela fitinha verde-e-amarela então é um luxo. Tem uns que têm um brasãobonito que só vendo. Tem gente que compra só para colocar na parede. Tem analfabeto que tem quatro, cinco diplomas.

Coleciona. Esses, se forem presos, vão ficar numa cobertura com vista para o mar.

Antes que alguém venha criticar minhas aulas aos meus filhos, vou logo avisando que o Antonio está quase terminando Ciências Sociais (estará apto à Presidência da República?), a Maria se formou em Moda e o Pedro estuda Arquitetura.

 

DE COMO FICAR SEM CULPA

O brasileiro é, antes de tudo, um infiel.

Poderia ter dito Euclides da Cunha, que conheceu na pele o problema. E nas costas.

Mas nem todos, diriam os mais jovens. Correto. Mas eu estou a me referir à minha geração, dos meus pais e meus avós.

Não é preciso deitar em nenhum divã de psicanalista para entender o que aconteceu com a minha turma.

Para nós, no começo dos 60, amor e sexo eram duas coisas completamente distintas. As namoradas não deixavam nada. Não se ficava, naquele tempo, imagine. A gente, depois de uns 15 dias (e de muita conversa), pegava na mão. Beijo na boca, só uns seis meses depois. E ficava nisso. Um ou outro conseguia um bico por cima do banlon. Sexo, jamais, impossível. Todo mundo tinha sua namorada (muitos casaram com elas). Depois do namoro íamos para a zona. Lá não tinha amor, tinha sexo, com descalcificadas prostitutas interioranas. E na capital, acontecia o mesmo.

Sexo com amor não existia. Portanto, para nós a divisão amor/sexo era absolutamente normal. Para nós, até então, uma coisa não tinha nada a ver com a outra.

A primeira vez que fiz amor e sexo junto, foi um desastre. A namorada sentou-se na cama e me disse:
__ Não é nada disso.

E começou a falar de coisas que eu nunca havia imaginado. Carinho, por exemplo. Nunca tinha feito carinho numa profissional do amor, é claro. Essa namorada me ensinou a fazer amor com sexo. Foi uma grande descoberta para mim. Sei até o dia: 1º de maio de 68 (eu tinha 22 anos), entre uma barricada e outra lá na USP.

Portanto, para minha geração, no início, traía-se naturalmente, sem culpa.

Hoje com um pouco de culpa, com um certo remorso.

Se na vida dos meus pais e avós eram normal a infidelidade e as amantes fixas ou eventuais (as esposas sempre sabiam e fingiam que não era com elas), com a nova geração a história é outra.

A maior invenção dos anos 90 fio o ficar. Que inveja !  Fica-se com uma hoje, com outra amanhã e ninguém está enganando ninguém, traindo ninguém. Culpa ?

Nem pensar. Sábia essa geração.

Ainda não entendi por que não se libera esse negócio de ficar para nós também, mais velhos. Acabaria a infidelidade. Você me traiu ? Não, só fiquei. Ou seja, a novíssima geração continua infiel. Só que deram um jeito na jogada. Ficar não é pecado, não está nos mandamentos nem de Deus nem da Igreja. Mas se eu ficar, como fica a minha namorada?

Eu tento entender os limites do ficar, mas sinto que a compreensão foge aos meus limites de infiel salesiano. Eu pergunto aos mais jovens:  mas ficar, fica até que ponto? Está me entendendo? Tem ficada completa? Ou, se for completa, não é mais ficar? E eles me dizem que, às vezes, ficar pode ser completo. E não é traição. Pinta, entende?  E, se pinta, rola. No dia seguinte, imagino eu, nem contam para o melhor amigo. Onde já se viu?

Só que, com a gente, mais velho, elas não ficam. E não é por causa da idade, não. É que elas sabem que nós não sabemos ficar. Quando um cara da minha idade consegue ficar com uma, quer ficar mais, quer no outro dia de novo. Aí não é mais ficar, já entra compromisso, pai e mãe no meio. Ficar, pode.

Ficar mais de uma vez, não. Tá pensando o quê? Casa da sogra, como se diria no meu tempo? Definitivamente eu não sei ficar. Fico devendo.

Ou seja, esse negócio de ficar pra cá, ficar pra lá, completo ou incompleto, é só entre eles. Há de se entender o espírito da coisa. E a minha geração tá muito mais para a carne que para o espírito em relação à ficagem.

Já namorou fulana? Não, mas fiquei. Que coisa mais normal.

Outro dia encontrei com uma amiga da minha geração e ela me disse com a maior naturalidade  que a filha dela tinha ficado com o meu filho. Só que quando eu quis tirar um sarro (que é como a gente ficava) com ela há uns 20 anos, nem pensar.  Ficou me devendo. E agora vem pra cima de mim com essa normalidade toda. Será que ela quer ficar comigo? Agora? A gente quase avô?

E o mais doido é que há 30 anos a gente cantava no ouvido das meninas fica comigo esta noite e não te arrependerás!!! E nenhuma delas entendeu o que eu queria dizer.

Resi,omdp: quem ficou, ficou. Quem não ficou, não fica mais !

E, como já dizia Zilda Mayo, atriz de pornochanchada, numa célebre entrevista para a revista Homem, amar não é só colocar lá dentro. Revista Claudia, 11/3/1996

PANDAS EM PERIGO DE EXTINÇÃO

Eu, Ana, li que o panda gigante, originário da China, um dos animais mais raros do mundo, está correndo risco de extinção. Ao contrário de outras espécies que também estão na iminência de desaparecer, o panda não está sendo diretamente ameaçado pela ação predadora do homem.  É que eles são vegetarianos, acredita !, eu não sabia ! Eles moram nas montanhas,  comem flores e bambus como alimentos principais e precisam comer 20 quilos de bambu por dia, comendo por cerca de 15 horas.

Porém, quando desaparecem esses alimentos principais em virtude do ciclo dessas alimentações os bichinhos (grande bichos, na verdade), não tem para onde ir. 

O bom disso é saber que há cientistas fazendo estudos da vida do panda gigante, seus hábitos,  alimentação e modo de vida com o objetivo de manterem esses animais em reservas naturais para pandas.  Mas, é realmente uma corrida contra o tempo para salvá-los. 

E a nós, apenas restará o desejo de dar certo !

 

VIAGEM AO REDOR DE UM JOELHO

Montevidéu __ Para começar, vou logo dizendo que acho a palavra joelho horrível. Pense bem: Jô-e-lho. Não é feia? Além de proporcionar rimas fáceis e deselegantes. Aqui ele é conhecido como rodillas, que soa bem melhor.
O que acontece, é que eu estou com um problema no joelho esquerdo. Desde março. Quatro meses, já. Me colocaram dentro de um tubo de ressonância magnética que deve ter este nome por causa do barulhão que faz lá dentro. O médico me disse que eu estava com o corno posterior lesionado. Coisas no menisco (outra palavrinha feia).

Opera, não opera, acabei não operando. Mas é o que eu vou fazer quando voltar ao Brasil. Estou em permanente litígio com ele, o joelho.

Toda esta introdução é para dizer que tenho pensado muito no joelho. No meu joelho. Nunca tinha dado muita bola para ele. Mas com o corno estourado você passa a conviver muito mais com a sua própria rótula (eta nome!). Ou, pelo menos, tenta.

Você não pode imaginar como um joelho é importante para um vertebrado como a gente. É a rótula que nos dá a rota, que nos traz e nos leva. Uruguai. Dentro  do quarto tem calefação. Mas o joelho sabe que, lá fora, está zero grau. Ele odeia o frio. E sofre, coitado. Ele não, eu.

É quando a gente percebe que não consegue fazer nada sem ele. Andar claudicando é o de menos. O pior é quando você pára numa esquina e fica com apenas a ponta do pé apoiada no chão, com a perna meio curvadinha. Parece uma bicha no ponto. Sempre passa um engraçadinho e grita: maricón! E quando a gente começa a atravessar a rua e percebe que não vai dar tempo para chegar do outro lado e não dá para correr ?

Até para as necessidades mais íntimas, você precisa do joelho. Tem que se sentar com a perna um pouco esticada, porque não dá para dobrar. Experimente fazer cocô com uma perna esticada. Alguma coisa não vai sair certo.

Se o sabonete cair no chão, na hora do banho, esqueça. Seus braços jamais chegarão lá embaixo. Enxugar os pés então, nem pense nisso. E, por favor, não tente chutar uma tampinha de coca-cola na rua. Pode ser fatal.

Mas a dificuldade maior é para se fazer sexo sem a colaboração total e imprescindível do joelho.

Pode parecer bobagem, mas, para o ato sexual, o joelho é muito mais importante do que o, por exemplo, pênis. Desculpem usar a palavra pênis, que é uma coisa que só médico tem. Perguntam: e o pênis, como vai ? Como o pênis fosse um tio da gente (já escrevi isso em algum lugar...).

Mas eu dizia da importância do joelho no ato sexual. De joelhos, por exemplo, nem pensar. Mesmo deitado, virado para cima, sem o joelho você não faz nada. O joelho é quem comanda, quem faz as inflexões todas, é ele quem dá a pressão, faz os movimentos, é ele quem dirige a ação. É ele quem engata a primeira, é ele quem gira para uma marcha a ré mais arriscada.

O resto não faz nada sem o comando do joelho, a principal alavanca do ato em si.

O joelho é o responsável pelo ritmo. É o joelho quem dá o tempo certo. E é nele que você se apoia na hora do orgasmo final e grita. De dor.

É impossível ir-se até o belíssimo Estádio Centenário e fugir na hora do sururu. Vou apanhar sentado.

É impossível ir-se até a igreja que eu vejo aqui da minha janela e ajoelhar-se diante do altar de Deus e pedir perdão por pensar e escrever tanta besteira.

É que a dor é maior que o amor, meu bem.  (Estadão, 1/8/1995)

AS  UNHAS

As unhas, como todo homo sapiens sabe, vêm das garras de nossos avós macacos. Parece-me que foi o que restou,  além do cóccix, também conhecido como uropígio ou sobrecu (sem acento, pois o assento é mais abaixo).

Foram-se os anéis e ficaram as unhas.   E qual é a função da unha hoje em dia?  O corte.  Só existem __ como os cabelos __ para serem cortados.   As moças, além de cortar, pintam, colorem e posam.

Cortar a unha requer certo engenho e alguma arte. Não me lembro da primeira vez que cortei a unha sozinho. Mas devo ter feito algum estrago. Não existia o Trim e foi na tesourinha mesmo. Creio ter me dado muito mal, pois passei a roer até já ter uns trinta anos de idade quando alguém me disse que roer unha significava insatisfação sexual.  Parei imediatamente, o que não fez minha performance sexual melhorar, mas deu-me o trabalho de ter que cortá-las algumas vezes por mês.

Eu tenho uma amiga (já avó) que rói até hoje. Das mãos e dos pés. As dos pés, com o passar dos anos e dos quilos, passou a ficar difícil.  O que fez ela ? Cortava com a tesourinha e armazenava numa bela caixinha de prata, revestida internamente por reluzente veludo grená. Dava vontade, ela ia à caixinha. E ai de quem mexesse naquilo.

Mineiro e macho, nunca fiz as unhas dos pés. Até que um dia, num spa, um gay saiu da podóloga com os pés perfeitos e orgulhoso de si mesmo. Dei uma olhada e o pé da bicha estava mesmo muito interessante.

No cair da tarde, ninguém vendo, preparei a cabeça, fui lá e fiz o pé. Adorei. A podóloga (este nome excita) perguntou se eu não queria fazer as mãos. Aí seria demais para a minha virilidade.

Mas agora morando numa ilha __ e como ninguém me conhece __, resolvi fazer as unhas das mãos.  Mas sem pintar. Coisa simples, rápida. Sabe que ficou legal ?  Me senti meio viado só uns dez minutos. Jurei que seria aquela a única vez. Mas elas estão crescendo e eu estou titubeando.

Tudo culpa dos macacos.

Em compensação o meu cóccix ninguém tasca. Um negócio que também se chama  sobrecu é para ser tratado com um certo respeito.  Os macacos que me perdoem. Sou um homo sapiens.

Afinal, a mesma língua que nos chama de  homo sapiens, sentencia:

__ Homo est animal bipes rationale.

Ou seja, o homem é um animal bípede dotado de razão.

Ou ainda:

__ Te hominem esse memento !

Lembra-te que és homem ! (Revista VogueRG,12/12/2002)

 

O  CASAMENTO  DA  PREFEITA  E  O  SAPATO

Resultado de imagem para desenho de casamentoResultado de imagem para sapato de homem  com sola caidaNo que eu tropecei, a minha filha, envergonhada, constatou:

__ Pá, olha a sola do seu sapato... (que vexame, meu Deus !)

Olhei. Havia soltado inteira. Apenas no bico, alguma cola ainda segurando as pontas.

Na mesa, à minha esquerda, o Danilo, diretor do Sesc. Na minha frente, o Felipe (meu ex-calouro e ex-presidente da Petrobrás) com a sua mulher, a Tuta.  Ao lado dele, o João Sayad com a Cosette Alves. E ainda a Suzana Prado com seus três filhos.  Apesar do ambiente (aparentemente) político, estávamos num calmo, bonito e elegantérrimo casamento. Da Marta e do Luis. E o assunto naquela mesa era Harry Potter e as praias de Florianópolis.

E estava na hora de se levantar para cumprimentar os noivos.  E, lá na fila, estava, entre outros, o presidente da República.  Minha filha dizia: não levanta (ela trabalha com moda, imagine você). Foi quando o Caíto, filho da Suzana e do saudosíssimo Caio Graco, me descolou uma fita com os músicos que, segundo ele, colava até pensamento.  E ficaram ali, uns três agachados ao lado da mesa, tentando colar a sola.

A culpa não era do sapato, tenho de reconhecer. Ele estava no fundo do armário e não me lembro de ter usado o danado nos últimos dez anos.

Quando eu o peguei, confesso que estava meio embolorado, mas um paninho resolveu.  Era (sim, um dia foi) um belíssimo sapato português, comprado em Lisboa, em 1991.

Digamos que ficou (mais ou menos)  colado.  Fui pegar a fila, que felizmente era lenta. Voltei arrastando a perna, dei um beijo no Antonio Pitanga, troquei figurinhas com o Mercadante e sentei no meu canto. Olhei e a coisa estava despregando, de novo. Fiquei na minha. O assunto agora era a candidatura do Fernando Morais para a Academia Brasileira de Letras e a beleza da noiva.

Chegou a hora da comida. No que eu me levanto, a Maria :

__ Pá, soltou !  A do outro pé !

Que cena ridícula. Ainda percebi um segurança cutucando o outro com o cotovelo, apontando na minha direção. Ficaram atentos. Podia ter uma bomba ali dentro. Me lembrei dum suicida que entrou num avião com uma bomba na sola do sapato, lembra ?

Não tive dúvida, me agachei (a Petrobrás, uns ministros e o Sesc são testemunhas), arranquei as duas solas e joguei debaixo da mesa. A Maria não acreditava no que estava vendo. Me lembrei do Tony Curtis e o Jack Lemmon debaixo da mesa em Quanto mais quente melhor, e o tiroteio rolando lá fora.

Meu medo agora era que o sapato se dissolvesse por completo e eu ficasse só de meia. E sapato não é igual cigarro, que você pode virar para o cara do lado e dizer:  acabou o meu cigarro, você tem um aí no bolso ?  Ninguém ali devia ter um sapato sobressalente.  O Pitanga usava um branco e o Vicentinho, um amarelo.  Sem sobressalentes, imaginei.

Comecei a raspar  no chão o couro que sobrou e senti que era liso, bom para dançar. E começou a valsa, com a Marta e o Luis, depois com o Lula e a Marisa, depois com os ministros, até chegar em mim, do MSS, debaixo daquela imaculada mesa), eu valsava com a minha filha ali, ao lado do poder nacional.

__ Foi bonita a festa, pá ! – Estadão 24/9/2003.

O  CHUVEIRO

 

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Já estão clonando gente.  As vacas ficaram loucas, já mando e-mail com imagem e som. Tudo evolui no mundo. Tudo, até o guarda-chuva. Menos o chuveiro. Não o chuveiro em si, mas a regulagem da temperatura. Não existirá ninguém no mundo preocupado com isso ?

Na nossa casa, tudo bem. A gente conhece bem a torneira da direita e a da esquerda e, quase automaticamente, consegue que a temperatura da água fique como a gente quer.

Mas ir tomar banho noutra casa que a coisa complica. Esquenta ou esfria.

Nos hotéis, por exemplo, o problema é internacional e cada vez pior. Pode ter zero ou cinco estrelas. É sempre uma luta.

Primeiro, que não se colocam mais aquelas bolinhas vermelha ou azul para você comear as negociações. Vermelho é quente, azul é fria. Então você tem que ligar uma delas e ficar esperando que esquente. E o problema é que a gente nunca sabe quanto tempo demora para esquentar. Mas, digamos que não esquente. Você fecha aquela torneira e abre a outra. E fica esperando. Mais ou menos o tempo da primeira, e nada. Chega-se à conclusão de que a quente é a outra. A essa altura, os dois braços já estão molhados. De água fria, é claro.

Vai de sete a nove minutos para você descobrir qual é a quente, depois de umas quatro tentativas. Agora começa o problema maior. Regular as duas. Tá pelando, você abre a fria (a da direita, não vá se esquecer). Aí fica tudo muito frio. Você diminui uma, aumenta um pouca a outra, chega no ponto, já com as duas pernas molhadas pela água fervendo. Aí você entra, começa o banho.

De repente, a coisa começa a esquentar, esquentar e você tem que sair dali de baixo. Está pelando (do verbo pelar, tirar a pele).  Olha para as duas torneiras. Qual mesmo que é a fria ?  Nunca mais acerta. O melhor é desligar as duas até o fim e começar toda a operação. Consegue, de novo, depois de muita luta, o corpo todo já molhado, mas fora do jato.  Aí vem uma onda fria (da Argentina?) e gela tudo. Qual é mesmo a quente ?

Depois de 20 minutos em que __ aparentemente __ a água está no seu ponto, você nota que o jato está vindo muito grosso, levanta o braço para rosquear lá em cima, para a coisa ficar mais aberta. Aí abre demais, passando ao largo da sua cabeça pegando, no máximo, a ponta dos dedos, se os braços abertos estiverem. Aí, já com as duas mãos, você torce chuveirinho que fica serpentando pelo Box, feito uma cobra. E, inexplicavelmente, a água volta a ferver.

Nesse momento, geralmente, você está com a cabeça toda ensaboada, vendo a sua inglória luta. Sim, porque chuveiro de hotel humilha qualquer um. A impressão que eu tenho é que quando você consegue regular a coisa, um cidadão resolver tomar banho num outro apartamento e, dependendo da quente ou da fria que ele use, desregula o hotel inteiro. Então temos que considerar isso também. Vou deixar de uma maneira tal que se aquele gringo deo 1086 for tomar banho só frio lá em cima, vou perder só dois graus aqui embaixo.

Dentro de pouco tempo você está fazendo contas mirabolantes, considerando os 800 quartos do hotel. Todos, claro, tentando regular o deles e, consequentemente, desregulando a sua vida.

São bobagens como esta que a gente fica pensando quando faz 55 anos e se pergunta: preciso esquentar ou esfriar a minha vida ?  Mas como fazer isso sem depender das outras pessoas ?  Se todo mundo está regulando em cima de você e você nem sabe mais se o bom é pela esquerda ou pela direita ?

Ou seja, estamos todos nas mãos dos encanadores. Estamos sempre entrando pelo cano.

É uma fria ou não é ?

(nos dias atuais, com a grave crise de água, essa crônica se torna assustadora!)

TIPOS DE HOMENS

O MENTIROSO – É o que mente, claro. E claramente. O mentiroso é um pouco doente, vive da mentira. É caso para terapias. Normalmente tem algum problema de personalidade, de auto-afirmação. Mente para os outros e para ele mesmo. Imagina-se outro. O bom mentiroso é aquele que acredita na própria mentira e a um determinado momento da sua vida não sabe mais o que é a verdade ou a mentira. Todo mundo, ao redor dele, sabe que ele é um mentiroso. Ele também. Mas não se emenda. Não há nenhum caso de mentiroso que deixou de ser mentiroso. Mentiroso não tem recaída. E isso não é uma mentira deslavada.

O PALHEIRO – Não confundir o palheiro com o mentiroso. O palheiro disserta sobre todos os assuntos. Geralmente assuntos não conhecidos na roda. O palheiro, geralmente, tem uma boa conversa e um bom vocabulário. O melhor palheiro é aquele em quem a gente chega a acreditar piamente até hoje. Os palheiros são muito mais inteligentes que os mentirosos. Poderíamos dizer que o palheiro é um mentiroso intelectualmente mais  enganoso.  Um mentiroso com PhD.  Tenho um amigo (vamos chamá-lo de Zé) que é um palheiro conhecido na cidade. Um dia uma amiga comentou: se o Zé fosse viciado em drogas injetáveis, seria fácil achar uma agulha num palheiro.

O GRUPEIRO – Tudo que ele diz, a gente sabe que é grupo. Ao contrário do palheiro, que não tem nenhuma intenção a não ser a palha fina, o grupeiro é quase um estelionatário da mentira. Um bom grupo pode prejudicar as pessoas e instituições. O grupeiro chega quase a ser um golpista. Todos nós, uma vez ou outra, já entramos no grupo de alguém. E o pior, é que, muitas vezes, sem perceber. Cair num grupo bem dado é péssimo, mas, às vezes, temos que tirar o chapéu para o bom grupeiro.

O CASCATEIRO –  Intelectualmente menos brilhante que o palheiro, o cascateiro costuma sair sempre em contradições. O que ele mais ouve dos amigos é isso é cascata e ele nem sempre tem bons argumentos para se defender. Mas não se ofende, ao contrário do palheiro. O cascateiro nem sempre tem nível superior e gosta de contar suas cascatas em bares. Quando o cascateiro é público e notório, pode ser divertido provocá-lo para contar umas cascatas. Alguns deles sabem que tudo que dizem é cascata. Mas não se importam. Afinal, tudo é cascata mesmo. Pode observar que toda turma tem seu próprio cascateiro.

O LOROTEIRO – Este é o mais manso deles. Contar lorotas não ofende, nem agride. Afinal, a lorota se aproxima de uma piada, embora o narrador prove, por a mais b, que aquilo realmente aconteceu.  Geralmente com um amigo ou parente. Aliás, dizem que os loroteiros é que são os inventores das piadas. Nada melhor que um loroteiro simpático, chegado numa cerveja num fim de noite na mesa num barzinho de calçada. Os loroteiros são bons contadores de histórias. Contar uma lorota é como jogar uma história fora. Geralmente, boas histórias.

O CHUTADOR – Este sabe de tudo, senão, não daria tantos chutes. Normalmente ficam quietos no seu canto, como um centro-avante avançado e, de repente, surgem dando um chute estrondoso, certeiro. O chutador chuta em qualquer direção. Até mesmo contra o próprio gol. O chute tem suas características particulares: tem que ser dado na hora certa, com precisão e sem pestanejar. Senão, vira cascata, palha, mentira, lorota. O chutador é, antes de tudo, um atento. Tem que saber a hora exata do chute para não acertar na trave. São os artilheiros da mentira. REVISTA MEIO-MENSAGEM, 4/4/1995

SEPAREI  E  MUDEI

A coleção do Eça é minha.  Você me deu.

Lembrei-me do Neruda, que você nunca leu.

Separação é assim mesmo. A gente divide o passado, relembra os presentes e acha que o futuro vai ser uma festa.

Deve ter sido a tal crise dos cinco anos. Já que a outra parte não saía, tomei eu a iniciativa. Mudei. Comprei o apartamento da frente, atravessei o corredor sem entrar no elevador da vida, arrastando minhas toalhas, meus cobertores, meus projetos, minhas cuecas.

Nos anos 60 o sonho de todo jovem era se mandar.  Woodstock era ali mesmo, bem mais perto que Trancoso. A gente queria distância dos pais. Para ficar sozinho e fazer coisas que perto deles não podia. Hoje a gente deixa tudo. Pra que ir embora se a namorada vem e dão um tapinha na nossa cara ?

Mas a sabedoria da separação está em cometê-la antes que a situação se deteriore de vez. A gente sabe quando está na hora certa. Sabe quando você vai com ele no restaurante e parece que não tem mais nada para conversar ?  Sabe quando um fica no quarto e o outro na sala ? Sabe quando aquele chinelo esquecido na sala é motivo para cara feia? Sabe como é ?

Entro em obras. Além das do Eça, no apartamento novo. Ele pouco vai olhar as evoluções. Faz cara feia para o piso. Pergunta que cor é aquela, meu Deus. Sente que o pai está saindo de casa. Um dia isso tinha de acontecer. Os pais crescem e um dia têm que ir embora. Tentar a vida sozinhos. Dizem que é assim desde que o mundo é mundo.

__ O quê ?  A coleção completa do Caetano ?  Não vem, não.  A mamãe que me deu.

Até que ele foi compreensivo. Ajudou-me a carregar os quadros, a geladeira e a cama com o colchão novo. Colchão novo que, pasmem !, ele quem inaugurou meses atrás.

Deixo ele sentado no chão vendo o Boris Casoy, já que os sofás eu levei. Tranco a porta do meu (dele) apartamento, atravesso o corredor.

Entro no meu. Fecho a porta. Enfim sós. E comigo. Enfim livre. Sento-me na cadeira de balanço. Balanço a cabeça e a vida. Quando percebo, já voltei umas cinco vezes para o apartamento dele que, a essa altura, já está a bagunça que ele sempre sonhou. Tinha esquecido um endereço. Tinha esquecido um pouco (muito) de mim lá dentro.

Numa das voltas já está a Fefa com ele, rolando pelo velho colchão na sala que virou improvisado sofá. Peço licença, desculpas, pego o pequeno abajur para ler o meu Neruda.

Volto para meu ninho. Estou estranho ali. Aquela sensação do que é que eu vou  fazer agora ? Uma sensação mais ou menos igual a quando cheguei em São Paulo e fui morar sozinho, aos 20 anos, lá perto do campo do Corinthians. Livre dos meus pais e preso ao futuro. Presente para mim mesmo.

Estou ali, na cadeira de balanço olhando pela janela. Vejo as torres da Paulista, penso no Natal, no Ano-Novo. E agora, o que é que eu vou fazer ? Jingle Bell. Não tá legal aqui, sozinho. Chamo a Lucila, que sempre me anestesia nessas horas. Ligo para os amigos, todos eles cuidando dos filhos pequenos. Eles não podem abandonar o Lucas, o Vicente, a Dorinha, a Clara, o Joaquim.  Não podem, por enquanto. Mas o dia deles vai chegar, eu sei. O Lucas, o Vicente, a Dorinha, a Clara e o Joaquim também não vão sair de casa. Eles é que vão. E não vai demorar muito, não.

Duas da manhã, volto para o apartamento velho. Ver se ele está dormindo, se está coberto. Estava acordado, lendo Eça, como se nada estivesse acontecendo. Como se fosse a coisa mais normal do mundo um pai, depois de crescidinho, sair de casa, ir tentar a vida solo.

__ Você fica com a Folha e eu com o Estadão. Você fica com a Istoé, eu com a Época. Você fica com a Net e eu com a TVA. Você fica com o UOL, e eu com o Terra. Você fica com o 486, eu com o Pentium. Você fica com o amor e eu com a saudade. Posso levar o papel higiênico ? E o cortador de unhas, aquele bom?

São cinco da manhã e a gente ainda está ali, na sala, dividindo as nossas vidas. Ele me deseja sorte, faz recomendações. Levou o Lexotan?

Cuidado com a gastrite.

Combino de ir ao jogo, logo mais, com ele. Você fica com o Corinthians, que eu fico com o meu mineiro Cruzeiro.

__ E, por falar em cruzeiro, você tem aí uns reais?

É duro cara, cair na real, separar e mudar. Principalmente quando a gente ama, e como ama, a pessoa separada.  ESTADÃO, 23/12/1998

BÊBADO:  O AMADOR E O PROFISSIONAL

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Sim, minha amiga, existem os amadores e os profissionais. E são facilmente reconhecidos. Pra começar, o profissional está sempre penteado. Despenteou, esteja certa de estar diante de um bêbado amador.

O amador é chato. E não tem exceção. Ele pode até não ser chato quando sóbrio. Mas passou da terceira dose, é dose.

Não sei como, mas o bêbado profissional nem hálito etílico exala. Pelo contrário, chega a ser até perfumado. Já o bafo do amador chega até mesmo antes dele. Pior que hálito de bêbado amador, só mesmo de bêbada amadora. É mesmo uma desgraça.

O profissional jamais __ jamais ! bate em mulher. Pelo contrário, chega com fala mansa e diz palavras leves. Geralmente leva. Apareceu falando alto, te cuida, é amador.

O BP (vamos chamar assim o bêbado profissional) sempre chega em casa dirigindo sem bater. Não se lembra como, é claro, mas chega. O BA nem acha o carro. E nem se lembra no dia seguinte. Acorda tentando reconstituir a noite para saber em que gole ficou a viatura.

BP que se preza jamais fala no ouvido da gente e muito menos coloca a mão no ombro da pessoa a quem se dirige. Já o BA é especialista em ouvidos, ombros e __ mais tarde __ colos.  Também costuma conversar segurando na sua mão, seja homem ou mulher.

Quando um deles vem chegando com aquele olhar de bebum, basta olhar nos sapatos. O do BP está limpo. Do BA está __ inclusive __ desamarrado.

No tempo em que eu bebia __ e me considerava profissionalíssimo __, um conhecido escritor e BP foi até a minha casa. Servi um uísque para nós dois e ele perguntou :

__ Quantas garrafas você tem em casa ?

Diante de tal pergunta imaginei que ele fosse mamar (BP odeia essa expressão) mais que uma.

__ Mas essa está cheia ! ...

__ Você é amador ! __ e deu uma golada e uma gargalhada. __ Amador ! E eu que te considerava um profissional...

Fiquei indignadamente sóbrio:

__ Como amador ???  Como ???

__ Meu querido, um profissional do álcool não tem apenas uma garrafa em casa.

__ Bem, eu tenho mais uma guardada.

__ Oito, meu filho, oito !!! Um bom bebedor tem que ter no mínimo oito garrafas em casa. E da mesma marca.

__ Mas eu não bebo nem uma por dia...

Ele, se servindo de mais uma dose:

__ Pois é aí que mora o perigo, a culpa ! Veja essa garrafa. Você fica bebendo e vendo ela se esvaziar rapidamente. De manhã ela estava cheia, de tarde já pela metade. De noite vazia. Ou seja, você fica bebendo e vendo o quanto você bebeu ! Dá culpa, você se sente um alcoólatra.  Se fosse um profissional, teria uma aqui na mesinha, outra ao lado do computador, outra no criado-mudo, na cozinha, na sala de jantar, uma perto da biblioteca e até uma no quarto das crianças. Não é a garrafa que deve circular pela casa. E sim o copo. E você. Assim, meu querido amador, você não sente a garrafa se esvaziando em algumas horas, na sua cara, te dedando, te culpando. Cada uma que você pega estará sempre quase cheia. E não da culpa. Pensando bem, você nem percebe que está de pilequinho. Me serve outra. Olha aí, já bebemos metade. Assim não é possível. Faça-me o favor !   REVISTA VOGUERG,7/5/2002

Antes :

__ Doi, entende, Mario ? Aqui dentro. É como se tivesse um punhal me rasgando as vísceras.

__ Deixa de ser dramático, Alberto ! Acontece com qualquer um.  É normal...

__ Normal, Mario ? Encontrar a sua mulher com o seu chefe, na garagem do prédio, dentro do carro ? Do meu carro ???

__ Isso passa...

__ Onde foi que errei ?  Pensa que eu não compareço sempre ? Tou sempre ali. Toda quarta e sábado. Tem os filhos... Que merda!

__ Você não está pensando em se separar por causa disso, né, Alberto ? Depois cicatriza.

__ Cicatriza... Você fala isso porque não é com você ! A essa altura a repartição toda sabe.

__ Pois é aí que está o problema, Alberto. O problema de... Levar uma chifrada...

__ Corno !  Pode usar a palavra corno !

__ Como eu ia dizendo, o problema de ser corno não é o ser corno em si. O problema é o corno achar que todo mundo no mundo sabe que ele é corno. Até o porteiro. Você passa e pensa : o filho-da-puta deve estar dizendo “ lá vai o corno”... Você vai comprar ingresso para o cinema, olha para a mocinha e tem certeza que ela sabe apesar de nunca ter te visto. É isso que dói.  Os outros !

__ É isso !  Por aí... Como é que você sabe disso ? Não vai me dizer que a Magali...

__ Também sou corno, cara... ou fui.  Mas não me preocupo mais com isso.

__ A Magali, gordinha __ desculpa __ daquele jeito.

__ A Magali... Fiquei assim, como você está agora.

__ Quanto tempo demora pra gente voltar ao normal ?

__ Conhece o AA e o NA ?

__ Alcoólicos Anônimos e Neuróticos Anônimos ? O que isso tem a ver com a nossa situação ?  Mas a Magali, quem diria...

__ É que tem também o CA.  Cornos Anônimos.

__ Deixa de besteira, cara.

__ Te dizendo. Freqüento há quase cinco anos.

__ Cornos Anônimos, imagina !

__ Te juro, fica atrás de uma igreja.

__ Sei, e na frente uma tabuleta: Cornos Anônimos ! Sacanagem, Alberto, tou falando sério.

__ Mas eu também. Toda vez que vir uma plaquinha de AA __ São Cornélio, é lá. Só corno e quem frequenta é quem sabe. Sabe aquela igreja em frente ao meu prédio ? Lá tem. Toda segunda-feira oito da noite.

__ Tu tá me gozando.

__ Acredite se quiser. Aquilo salvou a minha vida. Hoje eu sou um corno tranquilo.

__ Manso, você quer dizer.

__ Tranqüilo.  O que você vai fazer nessa segunda-feira ? Todo mundo conta as suas experiências, você não precisa dizer o teu nome verdadeiro. Lá eu sou Edgard.

__ Bom nome pra corno. Tu tá me gozando.

__ Você vai ouvir histórias de corno, que encontrar a mulher beijando o chefe na garagem é pinto. Você vai se sentir aliviado.

__ Nem me fale nessa palavra !

__ Pinto ou viado ?

__ Segunda-feira, oito da noite...?

Depois :

__ O que você achou ?

__ Rapaz, eu estou impressionado. Em vários sentidos. Vários.

__ Eu disse que não precisava vir com esses puta óculos escuros. Aqui ninguém se esconde.

__ A primeira coisa que me impressionou foi que todos, sem tirar nem pôr, têm cara de corno. Impressionante.

__ Que mais ?

__ A calma como eles contam cada caso. Realmente, o que aconteceu como foi ... Como diria ?

__ Pinto ?

__ Não enche. Segunda que vem venho sem óculos.

__ E são pessoas iguais a nós...

__ Exatamente. Saí mais leve, sabe, como se tivesse ido buscar o resultado de um exame de sangue... e negativo! Olha, te agradeço.  Eu diria até que me sinto bem como corno. A gente fica pensando que é que só com a gente... Não tou nem mais com raiva do gerente.

__ Pode ter certeza que alguém come a mulher dele. É um círculo vicioso....

__ Incrível. Doido pra chegar em casa, beijar as crianças, a patroa e tocar a vida. Mas segunda a gente volta, né ?

__ Claro. Você ainda não assumiu que foi só um beijo que você viu na garagem !

__ Como que você sabe ?

__ No CA a gente sabe de tudo. Vamos tomar uma cervejinha ? Eu pago.

__ Incrível... Pensando bem, esse negócio de chifre é um negócio que colocam na cabeça da gente e...   INÉDITA, 12/5/2007

PRA CUMEMUIÉ,  UAI

__ Pra cumemuié,  uai.

Não fosse pelo microfone do repórter, poderia se dizer tratar-se de um filme bíblico. O sujeito estava todo coberto de lama, junto com mais de trinta mil iguais a ele, escavando a terra lá em Serra Pelada.  O documentário era antigo, é claro, mas passou na televisão outro dia. E o mineirinho ali, ao ser perguntado por que queria achar ouro e ficar rico, não pestanejou:  pra cumemuié, uai. Claro. Que outro motivo ele teria? Só fiquei na dúvida se era para conquistar  a sua mulher ou para transar com qualquer mulher.  Provavelmente a segunda hipótese.

O Cacá Rosset já tinha esta teoria há muitos anos: tudo que o homem faz, tudo, é com um único objetivo: cumemuié. O cara faz  um esforço desgraçado para ficar rico pra quê ? O sujeito quer ficar famoso pra quê ? O indivíduo malha, faz exercícios pra quê? Mulher ! Pode ser até a própria. Mas a verdade é que a mulher o objetivo do homem. O pavão também é assim. Os animais são assim. Os bichos só pensam nisto. Já as bichas, pra cumeomi.

Fico imaginando aqueles ministros todos lá na posse e um dizendo para o outro, enquanto posam para fotografias: vai rolar muita mulher aqui no pedaço. O jogador quando faz o gol pensa a mesma coisa. O artista em close na novela, tem certeza. Aquele candidato a prefeito naquela cidadezinha. Para o que ele quer aquele pequeno poder ?

As mulheres, antigamente, ficavam trancadas dentro de casa e se tratavam e ficavam bonitas apenas para os seus homens. Aí começaram a dar liberdade pras danadas e deu no que deu. O mundo ganhou vida, além da beleza, é claro.

Pode continuar a ler, minha querida, que as barbaridades vão parar por aqui. Pode parar de me achar machista, machão ou coisa parecida. Tudo que eu quis dizer é que o homem vive em função de você. Vivem e pensam em você o dia inteiro, a vida inteira. Se você, mulher, não existisse, o mundo não teria ido pra frente. Homem algum iria fazer alguma coisa na vida paara impressionar outro homem, para conquistar um sujeito igual a ele, de bigode e tudo. Um mundo só de homens seria o grande erro da criação.

Já dizia a velha frase que atrás de todo homem bem-sucedido existe uma grande mulher. O dito está envelhecido. Hoje eu diria que na frente de todo homem bem-sucedido existe uma grande mulher.

É você, mulher, quem impulsiona o mundo.  É você quem tem o poder e não o homem. É você quem decide a compra do apartamento, a cor do carro, o filme a ser visto, o local das férias. É mesmo para você que vai o ouro extraído lá na lama. Bendita a hora em que você saiu da cozinha e, bem-sucedida, ficou na frente de todos os homens.

E, se você que está lendo isto aqui, for um homem, tente imaginar a sua vida sem nenhuma mulher. Aí na sua casa, onde você trabalha, na rua, nas telenovelas. Só homens. Já pensou ? Filmes só com homens ? Romance sem uma Capitu ou uma Madame Bovary ? Um casamento sem noiva ? Enfim, um mundo sem metas.

Tá certo o mineirinho de Serra Pelada. Todo o ouro do mundo para as mulheres. E, aos homens, um abraço.  ÉPOCA, 20/10/2003

O CRAVO

Foi depois do banho. Me enxuguei, fiz a barba ainda nu, cortei as unhas e quando fui colocar a cueca foi que vi o cravo. Não no rosto barbeado. Mas lá, mais embaixo. No, digamos, pênis. Observei bem, não era uma pinta que iria nascer assim de repente. Era um cravo. No duro. Lá.

Tentei espremer, mas as unhas estavam curtas, tentei apenas com os dedos. Doía. Tirar um cravo dali dói pra caceta, se me perdoa a comparação.

E agora?

Pensei na santa Rosinha, uma senhora que me faz limpeza de pele. Mas não podia chegar pra ela e apresentar esse cravo assim sem mais nem menos. Nem com luva ela iria fazer o trabalho. Estou sem namorada. E um compromissor compromisso para o sábado com a  minha distinta professora de inglês. Também não. E se ela chega ali no pedaço e vê o danado lá ? Vai me desculpar, mas não chupo pau com cravo !

Nessa hora os amigos não contam. Você espremeria o cravo do pau de um amigo? Jamais ! Como fazer ? Vou ter que esperar a unha crescer de novo. Mas e a professora de inglês? Até lá ele deve ter crescido mais ainda. Impossível não ver. Na parte de cima do corpo do supracitado. Visível aqui de cima.

Nessa noite não dormi. De manhã, ainda na cama, fui me certificar. Poderia ter sido um sonho. Nada. Era real. E parecia estar maior. Tentei com os dedos. Apenas dor. Muito sensível a região.

Tenho um primo que é candidato a reitor da federal aqui na Ilha. Marquei um jantar. Depois de muitos vinhos, contei a situação para ele. Homem das ciências, encararia meu problema como cientista, pesquisador.

__ Tá me contando isso por quê ? Você não vai querer me dizer...

__ Com luvas...

__ Tá louco !  Se alguém sabe disso na universidade, perco a eleição. O adversário vai logo dizer:  vocês querem para reitor um sujeito que pega no sexo dos outros ?

Pedi mais uma garrafa de vinho.

__ Vamos ali no banheiro.

__ Pára com isso, primo !  E a minha mulher, o que ela vai pensar ?

__ Só quero te mostrar.

__ Não quero nem ver !!!

__ Uma coisinha de nada... Eu trouxe as luvas, olhas.

__ Disfarça, disfarça...

Silêncio.

__ É na cabeça ?

Opa !

__ Imagina ! No corpo, quase perto da barriga. Praticamente na barriga.

Ele pensa :

__ Não espremeria nem se fosso no rosto.  Tá se esquecendo que a gente é mineiro, ainda por cima ? Mineiro que é mineiro não sai pegando no pau dos outros, não. Pega uma puta, pronto.

__ E você acha que alguma puta do mundo ia sair por aí espremendo pau de homem? Ainda ia me achar viado.

__ É primo, você está com um problema.

__ Eu sei, caralho ! Eu sei !

Dispensei a professora de inglês, do restaurante mesmo.

As minhas unhas estão crescendo. Lentamente, muito lentamente. Parece que elas sabem.  INÉDITA, 11/5/2007

PERFUME DE GARDÊNIA

     

Tudo começou com o talquinho ou bundinha do bebê, quando o homem nasceu. Mal sabiam os pais onde aquilo iria terminar. Sem falar no óleo Johnson e no Nenedent.

Mas, pouco a pouco, o menino foi crescendo e percebendo que aquele negócio de talquinho e oleozinho e perfuminho e outros inhos eram coisas de menina. Que homem não usava nem talco nem perfume, oras !  Imagina !

Banho, na tenra e imunda idade, o menos possível. E mesmo quando enganava lá dentro, mal usava o sabonete.  Mas vinha a mãe a olhar atrás da orelha. Volta para o banheiro, menino. Ali, pelos dez anos, foi convencido definitivamente a usar o sabonete. Contrariado, mas foi. Pensa que as visitas não reparam ?

E escovar os dentes __ pelo menos antes de dormir ? Tudo bem, tudo bem, ficava com um gostinho bom na boca. Começaram a inventar uns dentifrícios (naquela época era assim que se chamava) com sabores outros e ele acabou aceitando perfumar a boca. Mas apenas a boca, porque ele era homem e etecétera. Alguns amigos até passariam pelo Halitol, anos depois.

Chega o começo da adolescência e o suor debaixo do braço começa a incomodar não a ele, mas aos outros. Quando percebe que incomoda também às outras, sucumbe ao desodorante. Tudo porque descobriu que existiam desodorante fabricados especialmente para eles, homens. Com cheiro de homem ! Nesta mesma idade começa a passar um negócio chamado brilhantina nos cabelos para manter as melenas mais ou menos ajeitadas. Aquilo empapava e brilhava.

Lá pelos dezoito anos, quase horrorizado, percebe que alguns amigos estão usando xampu, coisa tipicamente feminina. Ou de viado ! Xampu, jamais ! Era só o que me faltava. Quando ele nota que é o único da turma a lavar o cabelo com o velho sabonete, resolve __ um dia, meio escondido __ experimentar o fêmeo artefato. E não é que o cabelo ficou mais assentado, cheirozinho ?

Xampu, tudo bem, mas condicionador, em hipótese  alguma ! nem morta ! Definitivamente, não ! Mas, já que estava mesmo lá, um dia, debaixo da ducha e olhando o condicionador da irmã por ali, como quem não quer nada, não custa, besuntou-se. Meu Deus, como ficou macio ! Como teve uma ereção durante a noite, sentiu-se firme. Continuava homem, apesar de já um pouco condicionado.

Um dia perguntou para a mãe pra que servia aquilo. Ah, isto é para hidratar a pele. Você nunca usou, meu filho ? Experimenta. Veja como as suas mãos vão ficar macias. Usou e gostou. Mas achou o perfume um pouco __ digamos __ feminino. Foi até a farmácia da esquina, olhou para um lado, para o outro e perguntou com voz firme: tem hidratantes com que cheiro ? Perdão, fragrância... Tem pra homem ?

Pouco tempo depois, viu na televisão um famoso jovem ator de novela fazendo um anúncio de desodorante. Ao passar de uma axila (que palavra !) para a outra, dava uma borrifada no peito.  Como é que eu não pensei nisto antes ? Gostou tanto que começava a função já pelo peito peludo e másculo, bem mais masculino que o ator que lhe deu o toque.

Ali, pelos trinta e cinco, já começa a frequentar a sessão de cosméticos das farmácias com uma certa naturalidade. Cheira antes, coloca nas costas das mãos. Principalmente para o pós-barba, onde agora passa uma loção genial. Começa a variar os odores. Sente-se bem, com a cara lisa, brilhante e perfumada.

Dizem que já anda passando desodorante nas partes intimas. Daí para uma gotinha  de um perfume (for man, of course) atrás de cada lóbulo da orelha, o que é que custa? Uma gotinha de nada. Um pequeno gesto para o homem, um grande passado para a humanidade.

E agora, aos sessenta, antes de sair, olha-se no espelho, aspira o ar profundamente, dando uma tragada em si mesmo. Perfume nos cabelos, na pele do rosto, nas axilas, no peito, na boca, nas partes íntimas. Fora o creminho para chulé  lá embaixo. Unhas feitas nas mãos e nos pés. Os pés ele ainda justifica dizendo que gosta do nome podóloga.

Ou seria pedóloga? Ou pedófila?

Inebriado por tanto perfume, mal consegue raciocinar  direito. Mas, olhando assim no espelho, ainda pensa como antigamente :

__ Quem é que vai querer esta bicha velha toda perfumada ?

E foi passar talquinho na bundinha do netinho, meio encafifadinho.  ÉPOCA, 6/10/2003

UMA TESE É UMA TESE   

       

 θέσις   

Sabe tese, de faculdade ?  Aquela que se defende ?  Com unhas e dentes ?  É dessa tese que eu estou falando.  Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos.  Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre __ sempre __ uma decepção.  Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas.  É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspeta, sisuda e compenetrada em si mesma.  E nós ?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha.  Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apudSic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador?  Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais !) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser __ tem de ser ! __ daquele jeito.  É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim.  Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.

Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande).  Ou seja, uma versão para nós, pobres ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada.  Pra quê ?  Pra virar mestre, doutor ?  E daí ?  Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto ?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem ? Que exaltação, que encômio é isso ?

E tem mais :  as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza.

Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora.  É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria são Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café-da-manhã,  ameaçou :

__ Não vou mais estudar !  Não vou mais na escola.

Os dois pararam __ momentaneamente __ de pensar nas teses.

__ O quê ?  Pirou ?

__ Quero estudar mais, não.  Olha vocês dois.  Não fazem mais nada na vida.  É só a tese, a tese, a tese.  Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese.  Tudo é pra quando acabar a tese.  Até trocar o pano do sofá.  Se eu estudar vou acabar numa tese.  Quero estudar mais, não.  Não me deixam nem mexer mais no computador.  Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês ?

Pensando bem,  até que não é uma má idéia !

Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese ?  Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história ?

Acho que seria uma tesão.  ESTADÃO, 7/1998

ESPIRRANDO A CRÔNICA

Daquelas danadas, sabe como é ?  Das que derrubam.  Te deixam na cama.  Pois é onde deveria estar agora se tivesse uma outra profissão qualquer.  Ligava para o serviço e, se precisasse, até arrumava um atestado médico. Dependendo da situação, faturava dois ou três dias.

Mas estou aqui, com o nariz escorrendo, depois de algumas pílulas e uns chás que uma boa samaritana me fez.

Estou dizendo isto porque sei que tem muita gente com gripe nestes dias frios.  E esta gripe já deve ter nome.  Sim, gripe que se preza logo tem um nome, já notou ? Se não, é resfriado mesmo.

Me lembro quando era garoto, 13 anos, interno num colégio de padres, quando apareceu a Gripe Asiática.  Acho que foi a mais famosa do século passado. Era tão danada que antes de chegar já era famosa. Claro, como o nome diz, começou lá na Ásia. E veio vindo.  Os jornais anunciavam que ela já estava na Europa.

Aqui, no terceiro mundo, a gente se preparava para enfrentar a gripe que vinha de longe, a gripe famosa no mundo todo. E, quando ela chegou, derrubou todo mundo. Foi um orgulho para todos nós. Estou revendo agora o dormitório do internato cheio de garotos deitados. Febre alta, aulas suspensas, um horror. Ninguém morreu, mas todo mundo deitou.

Me recordo de uma outra gripe famosa, a Calabar. Chamava assim porque era traiçoeira. Começo dos anos 70, auge da ditadura militar. Eu trabalhava na Última Hora quando ela chegou em São Paulo, vindo do norte.  Os militares mandaram um telex para todas as redações do país proibindo terminantemente que se escrevesse no jornal o nome da gripe que derrubava todos nós, inclusive __ acho __ os milicos.  Não podia escrever Calabar nos jornais, nem dizer nas rádios, nem nada.

Explico: Chico Buarque e Ruy Guerra haviam escrito uma peça chamada Calabar e a Censura Federal a proibiu.  Não podia nem ser lida.  Aí os militares começaram a achar que falar na gripe Calabar era provocação para todo mundo lembrar do Chico e do Ruy. Talvez você não acredite nesta história, mas quem trabalhava nas redações naquela época pode confirmar.

Já teve várias gripes com nomes de mulheres famosas, que vinham acompanhadas da devida explicação: é porque leva direto pra cama. Uma maldade. Peguei a Xuxa, entre outras.

Dei uma geral agora na Internet para ver se esta minha gripe já tem nome, pois, já disse, gripe sem nome, pra mim, é resfriado.  E, apesar de todo mundo estar com ela, ainda não tem, não.

Pouco sei sobre gripes, apesar de ser filho de médico. Sei que a palavra tem origem francesa. Donde se conclui que foi lá que surgiu o vírus ?  Tem cara de francesa mesmo esta doença. Passou por Portugal e chegou nos nossos índios matando boa parte deles.  Entradas e Bandeiras, se chamava a gripe naquela época.

Hoje em dia até o Bin Laden já virou nome de gripe:  quando você pensa que acabou, ela volta mais surpreendente ainda. ESTADÃO, 3/9/2003

QUEM ESCREVE AS BULAS

Quando me perguntam a profissão e eu digo que sou escritor, logo vem outra em cima:  de quê ?  De tudo, minha senhora. De tudo, menos de bula.  Romance, cinema, teatro, televisão, crônicas, ensaios, tudo-tudo, menos bula !

Uma vez, num barzinho, uma gatinha me perguntou o que eu escrevia e disse que escrevia bula.  Ela não deu a menor atenção para mim.  Se dissesse que era cronista do Estadão talvez tivesse mais sucesso.   Por que o preconceito contra as geniais bulas ?  Quando é bula papal todo mundo leva a sério, mesmo que seja para dizer não se pode fazer amor sem a intenção da procriação (que palavra mais animal !).

Não que eu não aprecie as bulas.  Pelo contrário.  Adoro lê-las.  E com atenção.  E, sempre, depois de ler uma, já começo a sentir todas as reações adversas.

Admiro, invejo esse colega que escreve bulas. Fico imaginando a cara dele, como deve ser a sua casa. Que papo tal escrivão deve levar com a mulher e com os vizinhos?

Tal remédio é contra-indicado a pacientes sensíveis às benzodiazepinas e em pacientes portadores de miastenia gravis.  Dá vontade de telefonar para o autor e perguntar como é que eu vou saber se sou sensível e portador ?

Quanto ele ganha por bula ?  Será que ele leva os obrigatórios 10% de direitos autorais ?  Merecem,  são gênios.

Jamais, numa peça de teatro, num roteiro de filme ou mesmo numa simples crônica conseguiria a concisão seguinte: é apresentado sob forma de uma solução isotônica (que lindo!) de cloreto de sódio, que não altera a fisiologia das células da mucosa nasal, em associação com cloreto de benzalcônio.  Sabe o que é ?  O velho e inocente Rinosoro.

Vejam o texto seguinte e sintam na narrativa como o autor é sádico:  você poderá ter sonolência, fadiga transitória, sensação de inquietação, aumento de apetite, confusão acompanhada de desorientação e alucinações, estado de ansiedade, agitação, distúrbios do sono, mania, hipomania, agressividade, déficit de memória, bocejos, despersonalização, insônia, pesadelos, agravamento da depressão e concentração deficiente.  Vertigens, delírios, tremores, distúrbios da fala, convulsões e ataxia. Pronto, tenho que ir ao dicionário ver o que é ataxia : incapacidade de coordenação dos movimentos musculares voluntários e que pode fazer parte do quadro clínico de numerosas doenças do sistema nervoso.

Já tá sentindo tudo que foi descrito acima ?

Quem  mandou  ler ?

E quem tem úlcera pélvica não pode tomar remédio nenhum. Está condenado à morte? Toda bula odeia essa tal de úlcera pélvica. As demais úlceras entram como coadjuvantes nos textos dos autores buláticos (tem a palavra no Aurélio).

E as gestantes (é como os buláticos chamam a grávida) ?  Elas não podem tomar nenhum remédio.  Os nobres coleguinhas protegem a gravidez.

Para todo remédio uma bula diferente, um estilo próprio, um jeito de colocar a vírgula diferente.

Tudo isso para dizer que outro dia, na cama, com a parceira amada, pego uma camisinha na mesinha e abro.  Sabe o que estava escrito lá dentro ? Parabéns! Você adquiriu o mais avançado e seguro preservativo do mercado brasileiro. Era uma bula. Escrita por algum conhecedor, é claro, dentro da caixinha da camisinha.  Claro que me entusiasmei e segui a leitura deixando a amada de lado.  Brochei, é claro. Mas, em compensação fiquei sabendo que o agente espermicida nonoxinol é contra as DSTs.

Depois dessa informação, aí sim, voltei para a alcova. Mas e a amada, onde estava?

E lembre-se sempre: todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças. E não tome remédio sem o conhecimento do seu médico.  Pode ser perigoso para a sua saúde.

E pra cabeça !

Agora, falando sério. Admiro os escritores de bula. Assim como invejo os poetas. Talvez por nunca ter sido convidado (nem teria experiência) para escrever uma e nunca tenha conseguido escrever um poema. Sempre gostei de escrever as linhas até o final do parágrafo.

Para mim o poeta é um talentoso preguiçoso.  Nunca chega ao final da linha. Já repararam ?

Já o bulático, esse sim, é um esforçado poeta !   -  ESTADÃO, 30/03/1997

BOLA NO PONTO FUTURO ?

Você sabe o que é uma bola no ponto futuro ?  Sabe não, né  ?  Nem eu.

Os locutores de futebol do Brasil __ e apenas do Brasil __ são todos intelectuais. Eles sabem o que é uma bola no ponto futuro. Nós não.

O brasileiro quer ser moderno, quer ser primeiro mundo. No dia em que aquele doido disparou na plateia, o Brasil chorou lágrimas de país desenvolvido.  O cara era branco, forte, curso superior, metralhadora de primeira, inocentes vítimas.

E é no futebol, onde a gente é o melhor do mundo (apesar dos técnicos), que os coleguinhas insistem em intelectualizar a coisa.
Lembra da melhor de três ?  Quer coisa mais brasileira do que uma melhor de três ? Até na cama o brasileiro gosta de uma melhor de três.  Pois agora não é mais melhor de três.  Agora é playoff, Playoff ! Influência americana.  Não do futebol americano, mas do basquete, da tal da NBA.

Até há pouco tempo o jogador batia um escanteio.  O que antes já era corner. Agora é tiro de canto. E o tiro de canto é mostrado pelo auxiliar de árbitro.  Aquele mesmo que todo mundo sempre chamou de bandeirinha.  Aquele que levantava o pau, a bandeira. Agora ele levanta o seu instrumento de trabalho.  Instrumento de trabalho !  Já pensou o cara saindo de casa para ir trabalhar e perguntando para a mulher :  Você viu o meu instrumento de trabalho ?

Até há pouco tempo também, o jogador gostava de fazer cera. Hoje, que ele faz mais cera do que nunca, dizem que ele está valorizando a posse da bola.  Tá na cara que o sujeito tá fazendo cera.  Mas vem um Galvão qualquer e o exime.  Imagina, fazer cera. Está apenas valorizando a posse da bola.

Antigamente, o jogador passava a bola. Dava um passe. Hoje ele não passa mais a bola.  Ele faz uma assistência.  Muito esquisito.  Será que o jogador que recebeu o passe gritou me assista !, e o cara assistiu ?  Sabe de onde vem isso ?  Dos americanos. Não do futebol americano, mas do basquete.

Vamos em frente.  Lembra do drible da vaca ?  Apesar de os campos continuarem com a grama __ menos em Brasília, onde comeram toda ela __, tiraram a vaca de campo. O drible da vaca agora se chama overlap. É, tempo de computador. Deletraram a vaca.

E chapéu ?  Dar um chapéu.  Hoje em dia não se dá mais chapéu. Dá-se (quem consegue, é claro) um voleio.  Coisa de americano, também.  Não do futebol americano, mas do tênis.

E aquele jogador que corria pela lateral ? Tanto podia ser o beque ou o ponta.  Pois agora os dois se chamam ala (basquele americano, de novo).  Quando eu crescer vou jogar de ala.  Pode ?  Tudo bem, já que o centroavante virou cabeça-de-área. Para desespero dos goleiros que antes defendiam ou com a mão direita ou com a esquerda. Hoje, defendem de mão trocada, depois de cuspirem na luva, coisa de hóquei sob (ou sobre) patins no gelo.
Lembra quando o sujeito dava uma rasteira no adversário ? Não existe mais rasteira. É uma obstrução.  E quando ele entrava de carrinho ?  Agora se chama falta pra cartão.

E ali por onde reinaram Zito, Dino, Dudu, Clodoaldo ?  Cada time tinha um só.  Agora tem quatro e eles atendem pelo nome de volante.  Logo mais serão seis os volantes. Coisa de loteria mesmo.

A trave do outro lado virou segundo pau.  A bola nunca vai no primeiro pau, já notou ? Mesmo quando chutada de rosca, que agora se chama de três dedos.  Antes, um drible era para humilhar.  Hoje, desmoraliza.

Cartola virou vice-presidente de futebol e saco virou virilha.
Morte súbita tá virando gol de ouro.

A segunda divisão chama-se série B...

Quanto a esperar a bola no ponto futuro, eu, um dia, chego lá. E agora eu vou tomar banho, porque ainda gosto de ficar na banheira.  Mario Prata - Estadão, 1/12/1999

E-GOI

https://www.e-goi.com.br/index.php?cID=232&aff=2f284fda13

COENTRO

Você já percebeu que existem umas palavras que parecem siglas de alguma repartição pública ou autarquia ?  Exemplo ?  COENTRO ! Tenho a impressão que você só vai conseguir o protocolo definitivo daquele documento depois de passar pelo COENTRO.

Outra palavra é ACEPIPE. Me parece algum órgão ligado à arquitetura. Sem a aprovação do ACEPIPE não podemos dar o habite-se. Passe primeiro no ACEPIPE que tudo vai ficar mais fácil no COENTRO.

Deve ser lá no DETRAN que fica o CLOACA.  O CLOACA é o departamento responsável pela colocação de novas placas.  Pelo menos foi o que me informaram. Quer uma placa bonitinha, com as suas iniciais ?  Deixa comigo que eu tenho um cara lá dentro do CLOACA.

Agora, se o seu processo não estiver andando lá no jurídico, você vai ter que conhecer alguém do ABAJUR.  Fale com o criado-mudo no ABAJUR que ele quebra o seu galho.

E  FUSÍVEL, o que parece ?  Algum órgão ligado à Marinha, aos portos.  Não, meu amigo, sem a autorização do FUSÍVEL não dá para liberar a carga.

Mas há um departamento que agiliza tudo. Para isso você precisa passar no VESPA. É o órgão mais moderno e ágil que conheço. Se não conseguir resolver o problema com o VESPA, desista, meu chapa.

O lugar aonde você só vai em última instância é o ECLODIR.  Lá ficam os advogados, os homens do direito. Não tente subornar ninguém no ECLODIR, pois pode ser fatal.

E se tem um lugar onde nada funciona  é o CAOS.  Para evitar o CAOS, passe antes pelo COENTRO e pelo ABAJUR.  Facilita muito.

E ai de que precise de algum papel lá no JILÓ.

Mas para tudo no Brasil tem um jeitinho.  Basta você conhecer alguém do PODER. Com carimbo do PODER você vai longe.   REVISTA BCP, 12/9/2002

E-GOI

https://www.e-goi.com.br/index.php?cID=232&aff=2f284fda13

EXTRAVAGÂNCIA

Eu sonhei que estava numa pizzaria pedindo uma pizza meio calabresa, meio extravagância.  E o garçom ainda me perguntava se a metade extravagância era com cebola ou não.
Acordei e pensei:  extravagância tem mesmo nome de um tipo de pizza, não tem ? Escritor adora trabalhar e brincar com as palavras. É que tem algumas que parecem significar outra coisa.
Por exemplo:  paralelepípedo. Nada a ver com a pedra que o consagrou.  Para mim, paralelepípedo é uma micose que dá entre os dedos dos pés.  O senhor tem pomada para paralelepípedo?

Alpendre não tem cara de varanda.  Para mim alpendre é um sujeito que está estudando alguma coisa nova, um aprendiz naquilo. Não liga não, que ele ainda é um completamente alpendre no assunto.

Urticária, tá na cara que é uma vingança terrível. Podia esperar tudo de você, meu amor, menos essa inesperada urticária.

E península?  Sabe o que é península ?  Remédio para urticária.  O senhor tome uma península depois do almoço e outra depois do jantar.  Península-C.

Carcará pode ser passarinho lá no Nordeste, mas na minha cabeça sempre foi e sempre será inflamação no ouvido. Fale mais alto, que estou com um carcará desgraçado no ouvido esquerdo.

Agora pense na palavra travesseiro. Travesseiro é aquele homem que conduz a balsa nos rios.

Canivete, é óbvio : é o sujeito que só tem uma perna.  É canivete desde pequeno.

Documento  não tem nada a ver com papel algum.  Documento é a cara com que a pessoa fica quando surpreendida em delito.  Encontramos o elemento completamente documento.

E o leitor, depois de ler este texto anexo (anexo significa completamente sem apetite) pense  um pouco no significado das palavras coitado e enfezado. E não vá se enfezar quando descobrir o que realmente significam.

Palavras, palavras, palavras, já dizia Shakespeare (que significa marca de geladeira). Aliás, comprei uma Shakespare de oitocentos litros.  Revista BCP, 2/8/2002

BIDÚ

Se alguém me diz: que o Presidente sabia de tudo e ficou na dele, eu respondo: BIDÚ.  (acertou)

Eu sou BIDÚ (meu nome e advinho/descubro tudo)

Tem palavras que somem. Expressões desaparecem. Para onde foram ?  Cartear marra é uma delas. Usadíssima nos anos 60, não vejo ninguém mais carteando marra. Quantas vezes nós, adolescentes, nos bailinhos, ao vermos alguém de outra cidade querendo dançar com as nossas meninas, chegávamos perto : não vem cartear marra aqui, não. Cartear marra era querer ser metido a gostoso.

Hoje, décadas depois, vou ao dicionário. Cartear significa também chutar.  E marra, coragem.  Portanto a expressão estava correta : fingir coragem.  E, cá entre nós, naquele tempo todo mundo carteava marra.

Outra genial :  par de besta.  Tipo assim : o cara veio com par de besta para cima de mim e eu saí na porrada. E eu nunca entendia por que o sujeito com um par de besta (o animal, claro), significava que era todo valentão.  O que é que a besta tinha a ver com valentia ?

Mas hoje, descobri.  O primeiro significado da palavra besta é uma arma, uma espécie de arco para atirar setas. Portanto, o cara que vinha com par de besta, vinha armado, vinha para agredir, para ofender.

Por outro lado, e ainda mais bestial, o interessante é que o sujeito metido a besta era o metido a gostoso, a bonitão, a conquistador. Aqui, no caso, nunca entendi o porquê da besta.  Se você for metido a besta, me explique.

E tinha uns mais valentões que vinham com par de besta cartear marra. Geralmente eram mais fortes que nós e a gente se danava (a palavra não é bem esta) em verde e amarelo. E eles tiravam as nossas minas para dançar. Justamente a que estava de tomara-que-caia e havia nos prometido dar tábua nele.  Depois ela me explicaria: queria o quê ?  Que eu tomasse chá-de-cadeira ? Nem que a vaca tussa você sabe.  E o gostosão com a nossa menina nos achando bola-murcha.

Mas uma que eu nunca entendi __ até hoje __ é mixar o carbureto.  Passei a manhã de hoje olhando dicionários, dando uns telefonemas e nada.  Se alguém aí souber a origem, me diga. A expressão era usada __ e muito mesmo __ quando a coisa __ qualquer coisa __ não dava certo. Se dizia : mixou o carbureto. Será que a origem seria acabar o gás ? Pode ser ?

E o cara que era café-com-leite, lembra ?  Também não tem o menor sentido.  Café-com-leite era aquele sujeito que não contava, que não sabia fazer nada.  Podia estar a mais num time de futebol, podia dançar com as minas. Café-com-leite era quase um bobo.

Naquela época não tinha per-répis, a não ser se você fosse   gilete. A gente saía para encher o picuá dos outros e qualquer problema, noves-fora-zero.

Mas o que mais me irritava, na adolescência, era a minha irmã mais velha achar que eu era inocente. E olha que eu já era culpadíssimo!

Me desculpe cartear tanta marra...
 

PRA LÁ DE MARRAKESCH

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Na noite anterior havia trabalhado feito um mouro.

Acordei e estava um verdadeiro calor senegalês.  Depois de tomar uma boa duma ducha escocesa, quase dormitar (dormir levemente e pouco, estar meio adormecido, cochilar)  num banho turco, fazer a minha ginástica sueca, passar a minha água de colônia, vesti meu terno azul-turquesa de casimira inglesa (que fora um presente de grego de uma amante argentina),  cuidei do meu pastor alemão, do pequinês, do dinamarquês, do meu gato siamês e, com uma pontualidade britânica, deslizando sobre o tapete persa, saí para fazer um negócio da China.

Logo voltei. Deveria ter saído com a minha refrescante bermuda, minhas sandálias havaianas e o autêntico chapéu panamá. Evitaria o calor, aquela tortura chinesa que só um bom sorvete de creme holandês refrescaria.

Ou teria sido melhor o terno príncipe de Gales, para evitar uma gripe espanhola ou uma febre asiática ?  A polaca gostaria mais.

Foi bom ter voltado. Meu periquito australiano e o meu canário belga, famintos, pediam semente de maconha colombiana. E minha galinha d’angola, o resto da linguiça calabresa, resquício de um sanduíche americano com um pouco de salada russa e molho inglês, cortado com o meu afiado canivete suíço.  Hambürguer, nem pensar, que é para inglês ver.

Acabei me atrasando, chupei uma mexerica (ou era uma tangerina ou, ainda, uma bergamota ?).  Brinquei de sombra chinesa e quase dormi.

Para acordar, ligo a televisão, vejo um pouco do esporte bretão, descasco uma lima-da-pérsia, fico em dúvida entre o pão sírio e o pão francês, conto até dez em algarismos romanos e depois em algarismos arábicos e resolvo fazer um filé à parmegiana.  Abro a janela veneziana, preparo um uísque paraguaio e ali, numa autêntica noite americana, tal e qual um tigre asiático, dou um sorriso amarelo, brinco com o porquinho-da-índia de porcelana inglesa e me sirvo à francesa.

Depois, balanço na poltrona de cana-da-índia com a cuba-libre. Mas, como o pato vai ser à Califórnia, com pimenta malagueta ou pimenta-do-reino, misturado com arroz marroquino (ou à grega?), preparo a milanesa e tudo bem. Vai cravo-da-índia ?  Será que o melhor mesmo não seria um filé à cubana, para depois enfrentar uma montanha russa, arrotando couve-de-bruxelas ?

Com a chave inglesa abro a porta emperrada, levo no bolso o meu soco igualmente inglês e saio ao encontro da minha cidade, do meu Brasil paraguaio.

Coisa de primeiro mundo. (Estadão, 8/5/1996)

A MULHER DE QUARENTA

Não tenho estatísticas em mãos e nem sei se existe alguma coisa a respeito das mulheres na faixa dos 40 ao 50, sobre o seu estado civil. Mas se eu for pensar nas minhas amigas que estão por aí, posso afirmar que a grande maioria está separada. E com filhos. E achando que nunca mais vão conseguir outro homem.  E se acham horrorosas.

Como eu sou de uma faixa um pouquinho acima, vou meter meu bedelho (que palavrinha mais feia) entre as quarentonas (pra começar), elas odeiam a palavra quarentona, saudosas dos trintinha. E temem o inevitável: cinqüentona.  Sexagenária elas não ousam nem pensar. Lembra aquelas tias que elas achavam carcomidas pelo tempo e pela memória).

Eu dizia que elas se acham acabadas. Por que elas não se consideram achadas ? A mulher de quarenta tem várias vantagens. A primeira é que já tiveram os filhos que tinham que ter e a gente não precisa se preocupar com a possibilidade de elas quererem mais um (aliás, conheço uma quarentinha __ olha que simpático __ que já é avó), justamente com a gente, que não estamos mais a fim de trocar fralda, ir à reunião de pais e mestres e vigiar a maconha na adolescência. Esta parte elas já resolveram.

Outra vantagem é que elas sabem que Cinema Novo não é aquele cineminha que inauguraram outro dia no shopping.  Cantam as músicas dos Beatles com a gente e também não sabem muito bem que são Oásis. Lembram até da Copa de 70, no México, e algumas delas chegaram a ver o Pelé jogar. Sabem até a medida da Marta Rocha.

Sexualmente sabem tudo. E como. Tiveram mais homens que possa imaginar nossa filosofia. Aquele negócio de ter orgasmo assim ou assado (assado é péssimo) elas já resolveram há mais de uma década. E já viveram o suficiente para se darem ao luxo de filosofarem sobre a vida, sem aquelas bobagens que as meninas de vinte pensam e dizem e, às vezes, até escrevem em diário.

Conseguem aprender a mexer no computador com muito mais eficiência que as mulheres de 60 (com todo o respeito, minha senhora). E não perdem parte do dia atrás da alma gêmea na Internet, como fazem as turmas de 20 e de mais de 50.

Neste momento, por exemplo, o computador acaba de me avisar que chegou uma mensagem nova. Fui olhar e era mais uma daquelas perguntando se eu quero aumentar o tamanho do meu pênis. Tem até a foto de um aparelho que “infla”.  Você já pensou, na hora de fazer sexo, você abrir o guarda-roupa, tirar aquela geringonça (a máquina, não a sua) e dizer: um momentinho que você vai ver o que é bom pra tosse ?  Não, as mulheres de 40 faz tempo que deixaram de se preocupar com o tamanho da geringonça. Com elas é “menos” preliminar e mais ação.  A mulher de 40 vai direto ao assunto. Elas já perceberam que podem comer e não apenas dar.  As mulheres de 40 comem como gente grande, comem como homem. E a gente dá, com prazer.

A mulher de 40 já tomou aqueles porres memoráveis quando tinha trintinha.  Ela sabe beber. E ainda puxa um sem ficar rindo feito uma principiante de 20 e sem a culpa da turma de 50. Dois tapinhas e vai para o cinema. Relaxadona, dona.

Ah, a mulher de 40 no verão chega ao seu esplendor debaixo do sol. Sabe a medida certa da sua cor e do seu suor. Sai da água como se saísse de um aquário, como se desfilasse em cima da água. Não acampa mais, nem fica em pousada sem Internet. A mulher de 40 sabe onde quer ficar. Gosta de um confortinho.

Ela se pinta pouco, ao contrário das de 20 e das de 50 e 60. No máximo um batom básico. Não se enchem de perfumes e podem pintar o cabelo até de vermelho que lhe cai bem. Não fica ridículo como as de 20 ou 50.

Enfim, a mulher de 40 sabe tudo e não está nem aí.

Por que então você sofre, mulher ?  O mundo não está perdido, está achado. Você é o melhor papo da praça. Você é o que há. Revista Época, 2004

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A MULHER  DE OITENTA

                

Vinícius de Moraes poderia cantarolar olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é uma velhinha que vem e que passa, no doce balanço, a caminho do lar. Se ainda existe uma mulher do lar, ela tem oitenta anos. Principalmente no nosso lar.

Me responde:  existe alguma coisa mais bonita do que ver uma senhora de oitenta anos, aqueles cabelos brancos (mulher honesta de oitenta não pinta mais os cabelos), caminhando pela rua de mãos dadas com o marido, bem mais trôpego do que ela ?  Quantas vidas existem naquelas duas mãos entrelaçadas ?  Quantos filhos, netos e bisnetos ?  Quanta vida, quanta história. Quanta gente aquela mulher de oitenta colocou no mundo ? E agora lá vai ela, caminhando, sem pressa nenhuma, sabe lá pra onde. Ela e o homem dela. Eternos enquanto duraram.

É, já não se fazem mais mulheres como as de oitenta. Perdemos a fórmula e esquecemos, quase sempre, que elas existem.  Mulher de um só amor, de uma só dedicação.

As mulheres de oitenta se dividem basicamente em três categorias : as ainda casadas (como sofreram com seus maridos há algumas décadas), as viúvas (como sofreram com a morte do marido) e as com o mal de Alzheimer (que não sofrem, porque não sabem mais).

O incrível é que a gente olha para uma velhinha e pensa que ela não saca mais nada. Que está apenas sentada ali na porta esperando o próprio enterro passar.  Lêdo e lerdo engano. Aquela que faz aniversário, com filhos, netos e bisnetos em volta. Olha ela lá, na dela, sentada na cadeira, olhando o nada.  Engana-se, minha filha. Ela está percebendo tudo. Ela sabe o que está rolando na festinha da bisa. Sabe quem trai quem, quem deve pra quem, quem odeia quem, dentro de seus próprios descendentes. Mas ninguém dá bola pra ela.

A mulher de oitenta é a mais sábia das mulheres.

Ela já teve trinta, achando que sabia de tudo. Chegou aos quarenta pensando: agora é que eu sei. E aí foi indo até chegar ali. Cada vez conhecendo mais o mundo e as pessoas do mundo. Quando vê o Bush dizendo besteira na televisão, ninguém lhe pergunta o que achou. Têm certeza que ela vai dizer bobagem. Mas, se ousarem perguntar, vão ouvir uma frase curta, perfeita, exata. Quase filosófica. As mulheres de oitenta filosofam. Infelizmente ninguém as ouve.

Você deve achar que uma velhinha não pensa em sexo. Imagina ! Então me diga em que idade ela parou, se sempre pensou cada vez mais, durante os vinte, trinta, quarenta, etc.  Será que chegou numa idade e ela disse para ela mesma :  hoje vou parar de pensar em sexo.  Negativo.  Pensa, e muito.  Tenho uma parente que morreu aos 87 anos se masturbando.  Feliz e sem a menor culpa, apesar de ir todo domingo à missa.  Sábia, descobriu que o prazer não pode ser pecado. Deve estar no céu, a danadinha. Cantando os anjos com ou sem trombetas.

Quanto àquelas que têm o mal de Alzheimer (antigamente eram apenas caducas. Pioraram o nome e não arrumaram o remédio) não sabem o que está acontecendo no mundo.  Sua mente não guarda nada do presente (o que tem lá suas vantagens), mas se lembram do passado como se fosse ontem. Pergunte sobre o baile de debutantes, como foi que ela conheceu o marido dela, daquela famosa quadrilha, das fofocas familiares dos anos 30. Um diário do passado vai invadir a sua cabeça e seus olhos vão ficar brilhando.

Ah, as mulheres de oitenta com seus cabelos brancos, seus óculos redondos, seu terço e sua caixinha de remédios.  Sábias, filósofas, boas. Gente finíssima.  Revista Época, 14/2/2004

O SAPATINHO VERMELHO

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Quem inventa as piadas ?  Eu nunca conheci ninguém que criasse as piadas.  As piadas são anônimas, multinacionais e seculares.  Já perguntei para o Jô Soares e para o Chico Anísio, nossos maiores comediantes.  O Jô me garantiu que só inventou uma.  Nem o Ari Toledo, que diz ter 60 mil no computador dele, sabe a origem delas.

Algumas piadas têm a tarimba de um dramaturgo experimentado.  A carpintaria de um escritor de talento. Esta,  por exemplo:

O pai, acordando o filho para ir à escola.  O filho, morrendo de sono, retruca:

__ Tenho três motivos para não ir à escola.  Primeiro, detesto acordar cedo.  Segundo, odeio a escola.  Terceiro, quando chego lá os meninos ficam gozando com a minha cara.

No que o pai responde :

__ Pois eu tenho três motivos para você ir à escola. Primeiro, que é a sua obrigação.  Segundo, que você já está com 54 anos. E, terceiro, que você é o diretor da escola !

Notem vocês que, dramaturgicamente, essa piada segue a linha dos grandes musicais com finale e grand finale.  Quando o pai diz você já está com 54 anos é o finale. O ouvinte não poderia imaginar que viria o grand finale :  você é o diretor da escola.

O mesmo acontece com os casos.  A diferença entre piada e caso é que a piada é ficção.  Tanto quem conta como quem ouve, sabe tratar-se,  digamos, de uma piada.  Já o caso, não.  O caso é realidade. Quem conta o caso jura saber onde aconteceu (geralmente na cidade de origem dele, no interior), quem foi o protagonista,  et cetera.  Na pior das hipóteses, diz que aconteceu com uma prima ou um vizinho.  Portanto, o caso tem que ter a cara do real, do próximo.

Assim como existem piadas clássicas, existem casos clássicos. Como o que se segue que, juram, aconteceu com um sujeito de São Paulo :

Digamos que ele se chamasse Carlos Alberto e fosse a pessoa mais normal do mundo.  Casado, dois filhos já crescidos, perto dos 50 anos, nunca tinha feito análise nem colocado dentadura. Corintiano, talvez. Dentista, com certeza. Afinal, os dentistas são as únicas pessoas normais do mundo.  Lá um dia, a sogra, que morava em Porto Alegre, ficou doente, ficou mal, e a sua esposa (Rita, digamos)  teve que ir socorrer a velha, acompanhá-la ao hospital.

E eis que o Carlos Alberto fica sozinho e, depois de quase 30 anos de fidelidade, resolve cair na vida.  Fazer uma farra.  Era a primeira e,  provavelmente, a única chance.  Enche o bolso de camisinhas, vai para o La Licorne, pega duas gatinhas,  leva para um  motel e o resto vocês imaginam.  Ele gostou tanto que, no outro fim de semana, chamou outro dentista amigo dele, pegaram as mulheres e foram para a casa dele mesmo.  Foi uma semana de libidinagem explícita.

Estava o Carlos Alberto assim, quando a mulher ligou de Porto Alegre, dizendo que a velha já estava boa e que voltaria para São Paulo com ela para a devida recuperação. Carlos Alberto limpou toda a casa, passou aspirador por tudo quanto foi canto __ nem um pelinho à vista __,  desinfetou toda a sua roupa, lavou copos e pratos, cinzeiros e bidês.  A casa ficou um primor.  Mandou dar uma lavada externa no carro e foi receber as duas no aeroporto.

Já no carro, com a esposa ao seu lado, salpicando-lhe beijos, e a sogra, ainda um pouco pálida, no banco de trás, ao entrar na Rubem Berta, deu uma freada e __ azar dos azares __ um sapatinho vermelho desliza de debaixo do banco da esposa para a frente. Ele vê ali a prova dos crimes, sua frio, mas pensa mais rápido.  Aponta um outdoor novo, as duas se distraem, ele pega o sapatinho vermelho, com fitinha e salto alto fino e, discretamente, joga pela janela.  Alívio.  Mas na segunda brecada sai o outro sapatinho;  ele inventa logo uma desculpa, as mulheres olham para fora, e ele consegue, lívido, atirar pela sua janela o segundo móvel do crime.

Quando chegam em casa, já na garagem, sai ele, sai a sua mulher, mas a sogra fica lá atrás no banco, toda torta, paralisada.
__ Está se sentindo mal,  mamãe ? __ pergunta a Rita.

__ Não, minha filha... É que, quando eu entrei no carro, estava com os pés inchados e tirei os sapatos.  Sumiram...

E soluçou. – Estadão, 23/1/1995 – Mario Prata

E-GOI

https://www.e-goi.com.br/index.php?cID=232&aff=2f284fda13

O AMOR DE TUMITINHA

Você também deve ter alguma palavra que aprendeu na infância, achava que tinha um certo significado e aquilo ficou impregnado na sua cabeça para sempre.  Só anos depois veio a descobrir que a palavra não era bem aquela e nem significava aquilo.  Um exemplo clássico é a frase  hoje é domingo, pé de cachimbo.  Na verdade não é pé de cachimbo, mas sim pede (do verbo pedir) cachimbo.  Ou seja, pede paz, tranquilidade, moleza, pede uma cervejinha.  E a gente sempre a imaginar um pé de cachimbo no quintal, todo florido, com cachimbos pendurados, soltando fumaça.  E, assim, existem várias palavras.  Por exemplo :

Álibi – Quando eu era garoto, tarado por filmes de bandido e mocinho e gibis, sempre achei que Álibi era o amigo do Mocinho.  Claro, o Mocinho sempre tinha um Álibi e o bandido não.  O Álibi, nos filmes, geralmente,  era um velhinho.  Mas resolvia.

Atalibálago – Esta é do escritor Fernando Moraes.  Quando era garoto em Minas, viu um nome escrito com cal numa enorme pedra: Atalibálago.  Adorou o nome, chegou a comentar com o pai e nunca esqueceu a esquisitice.  Era pequeno, achava que era palavrão. Xingava as pessoas:  seu atalibálago !  Filho de uma atalibálaga !  Só anos mais tarde, veio a decobrir que, na verdade, era um candidato a deputado que um dia acabou se elegendo e se chamava, na verdade, Ataliba Lago.

Margarida – Esta está na peça  Apareceu a Margarida, do Roberto Athayde.  A personagem (magistralmente interpretada por Marília Pêra e dirigida por Aderbal Freire-Filho) achava que o Hino Nacional tinha sido feito para sacanear ela:  Do que a terra...Margarida...

Nabucodonosor – Eu sempre achei que o babilônico  Nabuco fosse de um país chamado Nosor.  Era Nabuco do Nosor.  Achava que devia ser na África, perto do Quênia, por ali.  Hoje já sei que Nabuco é um bar na Villaboim.

Seu Penhor – O poeta Sérgio Antunes me confessou outro dia que ele achava que o Seu Penhor (desta igualdade) fosse o ranzinza antigazeteiro do nosso grupo escolar, em Lins.

Sulfechando – Meu primo Hugo Prata um dia perguntou ao pai dele o que significa o verbo Sulfechar.  O pai alegou que esse verbo não existia e teve que provar com dicionário e tudo.  Como o garoto insistia em conjugar o verbo, o pai perguntou onde ele tinha ouvido tal disparate.  E ele disse e cantarolou aquela música do Tom Jobim:  são as águas de mar sulfechando o verão...

Convosco – A Bíbi da Pieve, quando rezava a Ave-Maria, achava que na parte o Senhor é convosco, convosco fosse algum adjetivo que ela não entendia. O que seria um senhor convosco ?  Um senhor bom, mau, um ricaço, um senhor filho-da-puta?

Tumitinha – Todo mundo conhece a música Ciranda-Cirandinha.  A Adriana, uma amiga, me confessou que durante anos e anos, entendia um verso completamente diferente.  Quando a letra fala o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou, ela achava que era  amor de Tumitinha era pouco e se acabou.  Tumitinha  toda vez que cantava a música, porque o amor dele tinha se acabado. E mais, achava que o Tumitinha era um japonesinho. Devia se chamar, na verdade, Tumita. Quando ela descobriu que o Tumitinha não existia, sofreu muito.  Faz análise até hoje.

Ventre Jesus – Aprendi a rezar a Ave-Maria ainda analfabeto, com três ou quatro anos.  E sempre achei que Ventre era o primeiro nome do Homem, quando dizia do vosso Ventre Jesus. Aliás, achava um belo nome para Deus:  Ventre Jesus !

Virundum – O Henfil,  só depois de grandinho foi que descobriu que o Hino Nacional não se chamava  O Virundum. – Estadão, 23/1/1995 – Mario Prata

 

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