___ C O N T O S___

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RAPUNZEL
Era uma vez um casal que havia muito tempo desejava ter um filho.
Contudo, os anos se passavam e seu sonho não se realizava. Afinal, um belo dia, a mulher percebeu que Deus ouvira suas preces. Ela ia ter uma criança !
Por uma janelinha que havia na parte dos fundos da casa deles, era possível ver, no quintal vizinho, um magnífico jardim cheio das mais lindas flores e das mais viçosas hortaliças.
Mas em torno de tudo se erguia um muro altíssimo, que ninguém se atrevia a escalar. Afinal, era a propriedade de uma feiticeira muito temida e poderosa.
Um dia, espiando pela janelinha, a mulher se admirou ao ver um canteiro cheio dos mais belos pés de rabanete que jamais imaginara. As folhas eram tão verdes e fresquinhas que abriram seu apetite. E ela sentiu um enorme desejo de provar os rabanetes.
A cada dia seu desejo aumentava mais. Mas ela sabia que não havia jeito de conseguir o que queria e por isso foi ficando triste, abatida e com um aspecto doentio, até que um dia o marido se assustou e perguntou:
__ O que está acontecendo contigo, querida ?
__ Ah! __ respondeu ela. __ Se não comer um rabanete do jardim da feiticeira, vou morrer logo, logo !
O marido, que a amava muito, pensou: “Não posso deixar minha mulher morrer... Tenho que conseguir esses rabanetes, custe o que custar!”.
Ao anoitecer, ele encostou uma escada no muro, pulou para o quintal vizinho, arrancou apressadamente um punhado de rabanetes e levou para a mulher. Mais que depressa, ela preparou uma salada que comeu imediatamente, deliciada.
Ela achou o sabor da salada tão bom, mas tão bom que no dia seguinte seu desejo de comer rabanetes ficou ainda mais forte. Para sossegá-la, o marido prometeu-lhe que iria buscar mais um pouco. Quando a noite chegou, pulou novamente o muro mas, mal pisou no chão do outro lado, levou um tremendo susto: de pé, diante dele, estava a feiticeira.
__ Como se atreve a entrar no meu quintal como um ladrão, para roubar meus rabanetes? __ perguntou ela com os olhos chispando de raiva. __ Vai ver só o que te espera!
__ Oh! Tenha piedade! __ implorou o homem. __ Só fiz isso porque fui obrigado! Minha mulher viu seus rabanetes pela nossa janela e sentiu tanta vontade de comê-los, mas tanta vontade que na certa morrerá se eu não levar alguns!
A feiticeira se acalmou e disse:
__ Se é assim como diz, deixo você levar quantos rabanetes quiser, mas com uma condição: irá me dar a criança que sua mulher vai ter. Cuidarei dela como se fosse sua própria mãe e nada lhe faltará.
O homem estava tão apavorado que concordou. Pouco tempo depois, o bebê nasceu. Era uma menina. A feiticeira surgiu no mesmo instante, deu à criança o nome de Rapunzel e levou-a embora.
Rapunzel cresceu e se tornou a mais linda criança sob o sol. Quando fez doze anos, a feiticeira trancou-a no alto de uma torre, no meio de uma floresta.
A torre não possuía nem escada, nem porta: apenas uma janelinha, no lugar mais alto. Quando a velha desejava entrar, ficava embaixo da janela e gritava:
__ Rapunzel, Rapunzel ! Joga abaixo tuas tranças !
Rapunzel tinha magníficos cabelos compridos, finos como fios de ouro. Quando ouvia o chamado da velha, abria a janela, desenrolava as tranças e jogava-as para fora. As tranças caíam vinte metros abaixo, e por ela a feiticeira subia.
Alguns anos depois, o filho do rei estava cavalgando pela floresta e passou perto da torre. Ouviu um canto tão bonito que parou, encantado. Rapunzel, para espantar a solidão, cantava para si mesma com sua doce voz.
Imediatamente o príncipe quis subir, procurou uma porta por toda parte, mas não encontrou. Inconformado, voltou para casa. Mas o maravilhoso canto tocara seu coração de tal maneira que ele começou a ir para a floresta todos os dias, querendo ouvi-lo outra vez.
Em uma dessas vezes, o príncipe estava descansando atrás de uma árvore e viu a feiticeira aproximar-se da torre e gritar: “Rapunzel, Rapunzel ! Joga abaixo tuas tranças !”. E viu quando a feiticeira subiu pelas tranças.
“É essa a escada pela qual se sobe?”, pensou o príncipe. “Pois eu vou tentar a sorte...”
No dia seguinte, quando escureceu, ele se aproximou da torre e, bem embaixo da janelinha, gritou:
__ Rapunzel, Rapunzel ! Joga abaixo tuas tranças !
As tranças caíram pela janela abaixo, e ele subiu.
Rapunzel ficou muito assustada ao vê-lo entrar, pois jamais tinha visto um homem. Mas o príncipe falou-lhe com muita doçura e contou como seu coração ficara transtornado desde que a ouvira cantar, explicando que não teria sossego enquanto não a conhecesse.
Rapunzel foi se acalmando e, quando o príncipe lhe perguntou se o aceitava como marido, reparou que ele era jovem e belo, e pensou: “Ele é mil vezes preferível à velha senhora...”. E, pondo a mão dela sobre a dele, respondeu:
__ Sim ! Eu quero ir com você ! Mas não sei como descer... Sempre que vier me ver, traga uma meada de seda. Com ela vou trançar uma escada e, quando ficar pronta, eu desço e você me leva no seu cavalo.
Combinaram que ele sempre viria ao cair da noite, porque a velha costumava vir durante o dia. Assim foi, e a feiticeira de nada desconfiava até que um dia Rapunzel, sem querer, perguntou a ela:
__ Diga-me, senhora, como é que lhe custa tanto subir, enquanto o jovem filho do rei chega aqui num instantinho ?
__ Ah, menina ruim ! __ gritou a feiticeira. __ Pensei que tinha isolado você do mundo, e você me engana !
Na sua fúria, agarrou Rapunzel pelos cabelos e esbofeteou-a. Depois, com a outra mão, pegou uma tesoura e __ tec, tec ! __ cortou as belas tranças, largando-as no chão. Não contente, a malvada levou a pobre menina para um deserto e abandonou-a ali, para que sofresse e passasse todo tipo de privação.
Na tarde do mesmo dia em que Rapunzel foi expulsa, a feiticeira prendeu as longas tranças num gancho da janela e ficou esperando. Quando o príncipe veio e chamou: “Rapunzel ! Rapunzel ! Joga abaixo tuas tranças !”, ela deixou as tranças caírem para fora e ficou esperando.
Ao entrar, o pobre rapaz não encontrou sua querida Rapunzel, mas sim a terrível feiticeira. Com um olhar chamejante de ódio, ela gritou zombeteira:
__ Ah, ah ! Você veio buscar sua amada ? Pois a linda avezinha não está mais no ninho, nem canta mais ! O gato apanhou-a, levou-a, e agora vai arranhar os seus olhos ! Nunca mais você verá Rapunzel ! Ela está perdida para você !
Ao ouvir isso, o príncipe ficou fora de si e, em seu desespero, atirou-se pela janela. O jovem não morreu, mas caiu sobre espinhos que furaram seus olhos e ele ficou cego.
Desesperado, ficou perambulando pela floresta, alimentando-se apenas de frutos e raízes, sem fazer outra coisa que se lamentar e chorar a perda da esposa tão querida.
Passaram-se os anos. Um dia, por acaso, o príncipe chegou ao deserto no qual Rapunzel vivia, na maior tristeza, com seus filhos gêmeos, um menino e uma menina, que haviam nascido ali.
Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, o príncipe caminhou na direção de Rapunzel. Assim que chegou perto, ela logo o reconheceu e se atirou em seus braços, a chorar.
Duas das lágrimas da moça caíram nos olhos dele e, no mesmo instante, o príncipe recuperou a visão e ficou enxergando tão bem quanto antes.
Então, levou Rapunzel e as crianças para seu reino, onde foram recebidos com grande alegria. Ali viveram muito felizes. (Irmãos Grimm)
O SOLDADINHO DE CHUMBO

Numa loja de brinquedos havia uma caixa de papelão com vinte e cinco soldadinhos de chumbo, todos iguaizinhos, pois haviam sido feitos com o mesmo molde. Apenas um deles era perneta: como fora o último a ser fundido, faltou chumbo para completar a outra perna. Mas o soldadinho perneta logo aprendeu a ficar em pé sobre a única perna e não fazia feio, ao lado dos irmãos.
Esses soldadinhos de chumbo eram muito bonitos e elegantes, cada qual com seu fuzil ao ombro, a túnica escarlate, calça azul e uma bela pluma no chapéu. Além disso, tinham feições de soldados corajosos e cumpridores do dever.
Os valorosos soldadinhos de chumbo aguardavam o momento em que passariam a pertencer a algum menino.
Chegou o dia em que a caixa foi dada de presente de aniversário a um garoto. Foi o presente de que ele mais gostou:
__ Que lindos soldadinhos ! __ exclamou maravilhado. E os colocou enfileirados sobre a mesa, ao laddos outros brinquedos. O soldadinho de uma perna só era o último da fileira.
Ao lado do pelotão de chumbo se erguia um lindo castelo de papelão, um bosque de árvores verdinhas e, em frente, havia um pequeno lago feito de um pedaço de espelho.
A maior beleza, porém, era uma jovem que estava em pé na porta do castelo. Ela também era de papel, mas vestia uma saia de tule bem franzida e uma blusa bem justa. Seu lindo rostinho era emoldurado por longos cabelos negros, presos por uma tiara enfeitada com uma pequena pedra azul.
A atraente jovem era uma bailarina, por isso mantinha os braços erguidos em arco sobre a cabeça, com uma das pernas dobradas para trás, tão dobrada, mas tão dobrada que acabava escondida pela saia de tule.
O soldadinho a olhou longamente e logo se apaixonou, pensando que, tal como ele, aquela jovem tão linda tivesse uma perna só.
“Mas é claro que ela não vai me querer para marido!, pensou entristecido o soldadinho, suspirando. “Tão elegante, tão bonita... Deve ser uma princesa. E eu ? Nem cabo sou, vivo numa caixa de papelão, junto com meus vinte e quatro irmãos.”
À noite, antes de deitar, o menino guardou os soldadinhos na caixa, mas não percebeu que aquele de uma perna só caíra atrás de uma grande cigarreira.
Quando os ponteiros do relógio marcaram meia-noite, todos os brinquedos se animaram e começara a aprontar mil e uma. Uma enorme bagunça !
As bonecas organizaram um baile, enquanto o giz da lousa desenhava bonequinhos nas paredes. Os soldadinhos de chumbo, fechados na caixa, golpeavam a tampa para sair e participar da festa, mas continuavam prisioneiros.
Mas o soldadinho de uma perna só e a bailarina não saíram do lugar em que haviam sido colocados. Ele não conseguia parar de olhar aquela maravilhosa criatura. Queria ao menos tentar conhecê-la, para ficarem amigos.
De repente, ergueu-se da cigarreira um homenzinho muito mal-encarado. Era um gênio ruim, que só vivia pensando em maldades. Assim que ele apareceu, todos os brinquedos pararam amedrontados, pois já sabiam de quem se tratava.
O geniozinho olhou a sua volta e viu o soldadinho, deitado atrás da cigarreira.
__ Ei, você aí, por que não está na caixa, com seus amigos? __ gritou o monstrinho.
Fingindo não escutar, o soldadinho continuou imóvel, sem desviar os olhos da bailarina.
__ Amanhã vou dar um jeito em você, você vai ver ! __ gritou o geniozinho enfezado. __ Pode esperar.
Depois disso, pulou de cabeça na cigarreira, levantando um nuvem que fez todos espirrarem.
Na manhã seguinte, o menino tirou os soldadinhos de chumbo da caixa, recolheu aquele de uma perna só, que estava caído atrás da cigarreira, e os arrumou perto da janela. O soldadinho de uma perna só, como de costume, era o último da fila.
De repente, a janela se abriu, batendo fortemente as venezianas. Teria sido o vento, ou o geniozinho maldoso? E o pobre soldadinho caiu de cabeça na rua.
O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e foi correndo procurá-lo na rua. Mas não o encontou. Logo se consolou: afinal, tinha ainda os outros soldadinhos, e todos com duas pernas.
Para piorar a situação, caiu um verdadeiro temporal. Quando a tempestade foi cessando, e o céu limpou um pouco, chegaram dois moleques. Eles se divertiam, pisando com os pés descalços nas poças de água. Um deles viu o soldadinho de chumbo e exclamou:
__ Olhe ! Um soldadinho ! Será que alguém jogou fora porque ele está quebrado?
__ É, está um pouco amassado. Deve ter vindo com a enxurrada.
__ Não, ele está só um pouco sujo.
__ O que nós vamos fazer com um soldadinho só? Precisaríamos pelo menos de meia dúzia para organizar uma batalha.
__ Sabe de uma coisa? __ Disse o primeiro garoto. __ Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta ao mundo.
E assim foi. Construíram um barquinho com uma folha de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o barco para navegar na água que corria pela sarjeta.
Apoiado em sua única perna, com o fuzil ao ombro, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio. O barquinho dava saltos e esbarrões na água lamacenta, acompanhado pelos olhares dos dois moleques que, entusiasmados com a nova brincadeira, corriam pela calçada ao lado.
Lá pelas tantas, o barquinho jogado para dentro de um bueiro e continuou seu caminho, agora subterrâneo, em uma imensa escuridão. Com o coração batendo fortemente, o soldadinho voltava todos seus pensamentos para a bailarina, que talvez nunca mais pudesse ver.
De repente, viu chegar em sua direção um enorme rato de esgoto, olhos fosforescentes e um horrível rabo fino e comprido, que foi logo perguntando:
__ Você tem autorização para navegar? Então? Ande, mostre-a logo, sem discutir.
O soldadinho não respondeu, e o barquinho continuou seu incerto caminho, arrastado pela correnteza. Os gritos do rato do esgoto exigindo a autorização foram ficando cada vez mais distantes.
Engim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou aliviado; aquela viagem no escuro não a agradava nem um pouco. Mal sabia ele que, infelizmente, seus problemas não haviam acabado.
A água do esgoto chegara a um rio, com um grande salto; rapidamente, as águas agitadas viraram o frágil barquinho de papel.
O barquinho virou, e o soldadinho de chumbo afundou. Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que, abrindo a boca, engoliu-o.
O soldadinho se viu novamente numa imensa escuridão, espremido no estômago do peixe. E não deixava de pensar em sua amada: “O que estará fazendo agora a linda bailarina? Será que ainda se lembra de mim?”.
E, se não fosse tão destemido, teria chorado lágrimas de chumbo, pois seu coração sofria de paixão.
Passou-se muito tempo __ que poderia dizer quanto? E, de repente, a escuridão desapareceu e ele ouviu quando falavam:
__ Olhe ! O soldadinho de chumbo que caiu da janela !
Sabem o que aconteceu? O peixe havia sido fisgado por um pescador, levado ao mercado e vendido a uma cozinheira. E, por cúmulo da coincidência, não era qualquer cozinheira, mas sim a que trabalhava na casa do menino que ganhara o soldadinho no aniversário. Ao limpar o peixe, a cozinheira encontrara dentro dele o soldadinho, do qual se lembrava muito bem, por causa daquela única perna.
Levou-o para o garotinho, que fez a maior festa ao revê-lo. Lavou-o com água e sabão, para tirar o fedor de peixe, e endireitou a ponta do fuzil, que amassara um pouco durante aquela aventura.
Limpinho e lustroso, o soldadinho foi colocado sobre a mesma mesa em que estava antes de voar pela janela. Nada estava mudado. O castelo de papel, o pequeno bosque de árvores muito verdes, o lago reluzente feito de espelho. E, na porta do castelo, lá estava ela, a bailarina: sobre uma perna só, com os braços erguidos acima da cabeça, mais bela do que nunca.
O soldadinho olhou para a bailarina, ainda mais apaixonado; ela olhou para ele, mas não trocaram palavra alguma. Ele desejava conversar, mas não ousava. Sentia-se feliz apenas por estar novamente perto dela e poder contemplá-la.
Se pudese, ele contaria toda a sua aventura; com certeza a linda bailarina iria apreciar sua coragem. Quem sabe até se casaria com ele...
Enquanto o soldadinho pensava em tudo isso, o garotinho brincava tranquilo com o pião.
De repente __ como foi, como não foi, é caso de se pensar se o geniozinho ruim da cigarreira não metera seu nariz __, o garotinho agarrou o soldadinho de chumbo e atirou-o na lareira, onde o fogo ardia intensamente.
O pobre soldadinho viu a luz intensa e sentiu um forte calor. A única perna estava amolecendo e a ponta do fuzil envergava para o lado. As belas cores do uniforme, o vermelho escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas tonalidades.
O soldadinho lançou um último olhar para a bailarina, que retribuiu com silêncio e tristeza. Ele sentiu então que seu coração de chumbo começava a derreter __ não só pelo calor, mas principalmente pelo amor que ardia nele.
Naquele momento, a porta escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez voar a bailarina de papel diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente.
No dia seguinte, a arrumadeira, ao limpar a lareira, encontrou no meio das cinzas um pequeno coração de chumbo: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último instante ao seu grande amor.
Da pequena bailarina de papel só restou a minúscula pedra azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos negros. (Hans Christian Anderson)

Olofin era um rei africano da terra de Ifé, lugar de origem de todos os iorubás.
Cada ano, na época da colheita, Olofin comemorava, em seu reino, a Festa dos Inhames
Ninguém no país podia comer dos novos inhames antes da festa. Chegando o dia, o rei se instalava no pátio do seu palácio. Suas mulheres sentavam à sua direita, seus ministros atrás dele, agitando leques e espanta-moscas, e os tambores soavam para saudá-lo.
As pessoas reunidas comiam inhame pilado e bebiam vinho de palma. Elas comemoravam e brincavam. De repente, um enorme pássaro voou sobre a festa.
O pássaro voava à direita e voava à esquerda... Até que veio pousar no teto do palácio. A estranha ave fora enviada pelas feiticeiras, furiosas porque não haviam sido convidadas para a festa.
O pássaro causava espanto a todos ! Era tão grande que o rei pensou ser uma nuvem cobrindo a cidade.
Sua asa direita cobria o lado esquerdo do palácio, sua asa esquerda cobria o lado direito do palácio, as penas do seu rabo varriam o quintal, e sua cabeça cobria o portal de entrada.
As pessoas, assustadas, comentavam:
__ Ah ! Que esquisita surpresa?
__ Eh ! De onde veio esse desmancha-prazer?
__ Ih ! O que veio fazer aqui?
__Oh ! Bicho feio de dar dó !
__Uh ! Sinistro que nem urubu !
__ Como nos livraremos dele?
__ Vamos rápido chamar os caçadores mais hábeis do reino.
De Idô, trouxeram Oxotogun, o “Caçador das Vinte Flechas”.
O rei lhe ordenou matar o pássaro com suas vinte flechas e Oxotogun exclamou:
__ Que me cortem a cabeça, se eu não o matar !
E lançou suas vinte flechas, Mas nenhuma atingiu o enorme pássaro. O rei mandou prendê-lo.
De Morê, chegou Oxotogi, o “Caçador das Quarenta Flechas”.
O rei lhe ordenou matar o pássaro com suas quarenta flechas e Oxotogi exclamou:
__ Que me condenem à morte, se eu não o matar !
E lançou suas quarenta flechas, mas nenhuma atingiu o pássaro. O rei mandou prendê-lo.
De IIarê, apresentou-se Oxotadotá, o “Caçador das Cinqüenta Flechas”. O rei lhe ordenou matar o pássaro com suas cinquenta flechas e Oxotadotá afirmou:
__ Que exterminem toda minha família, se eu não o matar.
Lançou suas cinquenta flechas e nenhuma atingiu o pássaro. O rei mandou prendê-lo.
De Itemã, chegou finalmente Oxotokanxoxô, o “Caçador de Uma só Flecha”.
O rei lhe ordenou matar o pássaro com sua única flecha e Oxotokanxoxô exclamou:
__ Que me cortem em pedaços, se eu não o matar !
Ouvindo isso, a mã de Oxotokanxoxô, que não tinha outros filhos, foi rapidamente consultar um babalaô, o advinho, para saber como ajudar seu únivo filho.
__ Ah ! __ disse-lhe o babalaô. __ Seu filho está a um passo da morte ou da riqueza.
E ensinou-lhe como fazer uma oferenda que agradasse às feiticeiras. A mãe sacrificou então uma galinha, abrindo-lhe o peito, e foi rápido colocá-la na estrada, gritando três vezes:
__ Que o peito do pássaro aceite este presente !
Isso aconteceu no momento exato em que Oxotokanxoxô atirava sua única flecha. O feitiço pronunciado pela mãe do caçador chegou ao grande pássaro.
Ele quis receber a oferenda e relaxou o encanto que o protegera até então. A flecha de Oxotokanxoxô o atingiu em pleno peito. O pássaro caiu pesadamente, se debateu e morreu.
A notícia se espalhou:
__ Foi Oxotokanxoxô, o “Caçador de Uma Só Flecha”, que matou o pássaro ! O rei lhe fez uma promessa: se ele conseguisse, ganharia metade de sua fortuna ! Todas as riquezas do reino serão divididas ao meio, e uma metade será dada a Oxotokanxoxô !!
Os três caçadores foram soltos da prisão e, como recompensa, Oxotogun, o “Caçador das Vinte Flechas”, ofereceu a Oxotokanxoxô vinte sacos de búzios; Oxotogi, “Caçador das Quarenta Flechas”, ofereceu-lhe quarenta sacos; Oxotadotá, o “Caçador das Cinquenta Flechas”, ofereceu-lhe cinquenta. E todos cantaram para Oxotokanxoxô.
O babalaô também se juntou a eles, cantando e batendo em seu agogô:
__ Oxóssi ! Oxóssi !! Oxóssi !!! O caçador Oxé é popular !
E assim é que Oxotokanxoxô foi chamado Oxóssi.
__ Oxóssi ! Oxóssi !! Oxóssi !!! (Lenda africana)
MARIA PAMONHA

Certo dia apareceu na porta da casa grande da fazenda uma menina suja e faminta. Nesse dia, deram-lhe de comer e de beber. E no dia seguinte também. E no outro, e no outro, e assim sucessivamente.
Sem que as pessoas da casa se dessem conta, a menina foi ficando, ficando, sempre calada e de canto em canto.
Uma tarde, os garotos da fazenda perguntaram-lhe como se chamava e ela respondeu com um fiozinho de voz:
__ Maria.
E os garotos, às gargalhadas, fecharam-na numa roda e começaram a debochar dela:
__ Maria, Maria Pamonha, Maria, Maria Pamonha...
Uma noite de lua cheia, o filho da patroa estava se arrumando para ir a um baile, quando Maria Pamonha apareceu no seu quarto:
__ Me leva no baile? __ pediu-lhe.
O jovem ficou duro de espanto.
__ Quem você pensa que é para ir dançar comigo? __ gritou. __ Ponha-se no seu lugar ! Ou quer levar uma cintada?
Quando o rapaz saiu para o baile, Maria Pamonha foi até o poço que havia no mato, banhou-se e perfumou-se com capim-cheiroso e alfazema. Voltou para casa, pôs um lindo vestido da filha da patroa e prenceu os cabelos.
Quando a jovem apareceu no baile, todos ficaram deslumbrados com a beleza da desconhecida. Os homens brigavam para dançar com ela, e o filho da patroa não tirava os olhos de cima da moça.
__ De onde é você? __ perguntou-lhe, por fim.
__ Ah, eu venho de muito, muito longe. Venho da Cidade de Cintada __ respondeu a garota. Mas o rapaz a olhava tão embasbacado que não percebeu nada.
Quando voltou para casa, o jovem não parava de falar para a mãe da beleza daquela garota desconhecida que ele vira no baile. Nos dias que se seguiram, procurou-a por toda a fazenda e pelos povoados vizinhos, mas não conseguiu encontrá-la. E ficou muito triste.
Uma noite sem lua, dez dias depois, o jovem foi convidado para outro baile. Como da primeira vez, Maria Pamonha apareceu no seu quarto e disse-lhe com sua vozinha:
__ Me leva no baile ?
E o jovem voltou a gritar-lhe:
__ Quem você pensa que é, para ir dançar comigo? Ponha-se no seu lugar ! Ou quer levar uma espetada?
Logo que o jovem saiu, Maria Pamonha correu para o poço, banhou-se, perfumou-se, pôs outro vestido da filha da patroa e prendeu os cabelos.
De novo, no baile, todos se deslumbraram com a beleza da jovem desconhecida. O filho da patroa aproximou-se dela, suspirando, e perguntou-lhe:
__ Diga-me uma coisa, de onde é você?
__ Ah, ah, eu venho de muito, muito longe. Venho da Cidade de Espetada __ respondeu a jovem. Mas ele nem se deu conta do que ela estava querendo lhe dizer, de tão apaixonado que estava.
Ao voltar para casa, não se cansava de elogiar a desconhecida do baile. Nos dias que se seguiram, procurou-a por toda a fazenda e pelos povoados vizinhos, mas não conseguiu encontrá-la. E ficou mais triste ainda. Uma noite de lua crescente, dez dias depois, o rapaz foi convidado para outro baile. Pela terceira vez, Maria Pamonha apareceu em seu quarto e disse-lhe com aquele fiozinho de voz:
__ Me leva no baile ?
E pela terceira vez ele gritou:
__ Quem você pensa que é para ir dançar comigo? Ponha-se no seu lugar ! Ou quer levar uma sapatada?
Outra vez, Maria Pamonha vestiu-se maravilhosamente e apareceu no baile. E outra vez todos ficaram deslumbrados com sua beleza.
O jovem dançou com ela, murmurando-lhe palavras de amor e deu-lhe de presente um anel. Pela terceira vez, ele lhe perguntou:
__ Diga-me uma coisa, de onde é você?
__ Ah, ah, ah eu venho de muito, muito longe. Venho da Cidade de Sapatada.
Mas como o rapaz estava quase louco de paixão, nem se deu conta do que queriam dizer aquelas palavras.
Ao voltar para casa, ele acordou todo mundo para contar como era bela a jovem desconhecida. No dia seguinte, procurou-a por toda a fazenda e pelos povoados vizinhos, sem conseguir encontrá-la.
Tão triste ele ficou que caiu doente. Não havia remédio que o curasse, nem reza que o fizesse recobrar as forças. Triste, triste, já estava a ponto de morrer.
Então Maria Pamonha pediu à patroa que a deixasse fazer um mingau para o doente. A patroa ficou furiosa.
__ Então você acha que meu filho vai querer que você faça o mingau, menina? Ele só gosta do mingau feito por sua mãe.
Mas Maria Pamonha ficou atrás da patroa e tanto insistiu que ela, cansada, acabou deixando.
Maria Pamonha preparou o mingau e, sem que ninguém visse, colocou o anel dentro dele.
Enquanto tomava o mingau, o jovem suspirava:
__ Que delícia de mingau, mãe !
De repente, ao encontrar o anel, perguntou surpreso:
__ Mãe, quem foi que fez este mingau?
__ Foi Maria Pamonha. Mas por que você está me perguntando isso?
E antes mesmo que o jovem pudesse responder, Maria Pamonha apareceu no quarto, com um lindo vestido, limpa, perfumada e com os cabelos presos.
E o rapaz sarou na hora. E casou-se com ela. E foram felizes (Lenda latino-americana)
O GATO DE BOTAS

Um lavrador trabalhava muito, durante a vida toda, ganhando sempre o suficiente para o sustento da família. Quando faleceu, deixou sua herança para os filhos: um sítio, um burrinho e um gato.
Ao filho mais velho coube o sítio; ao segundo, o burrinho; e o caçula ficou com o gato.
Este último, nada satisfeito com o que lhe coubera, resmungou: “Meus irmãos sobreviverão honestamente. Mas e eu ? O que vou fazer ? Talvez possa jantar o gato e com o couro fazer um tamborim. Mas e depois ?”.
O gato logo endireitou as orelhas, querendo ouvir melhor um assunto de tamanho interesse. Então, percebendo que precisava agir, foi dizendo:
__ Não se desespere, patrãozinho, pois eu tenho um plano. Consiga-me um par de botas e um saco de pano e deixe o resto comigo.
O jovem achou que valeria a pena tentar; afinal, o gato parecia inteligente e astuto. Deu-lhe então um saco e um par de botas, desejou-lhe muito boa sorte e deixou-o partir.
O gato dirigiu-se a uma mata na qual sabia que viviam coelhos de carne deliciosa. Mas eram bichos difíceis de apanhar. O esperto bichano enfiou no saco um punhado de farelo e outro de capim. Deixou o saco no chão e ficou bem pertinho, imóvel, à espera de que algum coelho jovem e inexperiente caísse na arapuca.
Nosso gato esperou pacientemente. Por fim viu suas esperanças se tornarem realidade: um coelhinho se enfiou no saco, atraído pelo cheiro do farelo, e começou a comer tranquila e gostosamente.
Rápido como um relâmpago, o felino passou um cordão na abertura do saco e prendeu o coelho. Com a caça nas costas, dirigiu-se ao palácio real.
__ Quero falar com o rei __ disse aos guardas, com ares de muita importância.
Foi conduzido à presença real. Afinal, não era sempre que aparecia um gato pedindo audiência.
Na presença do soberano, o gato se curvou em respeitoso cumprimento.
__ Majestade ! Meu patrão, o marquês de Sacobotas, encarregou-me de oferecer-lhe este coelho, caçado nas matas de propriedade dele.
O rei, que apreciava muito carne de coelho, alegrou-se com o presente:
__ Diga a seu patrão que agradeço muito a gentileza.
Alguns dias depois, o gato apanhou duas grandes rolinhas numa emboscada, num campo de milho. Guardou as aves no saco e foi logo levá-las ao rei.
O rei aceitou com todo prazer essa segunda oferta, pois adorava carne de rolinha !
Nos meses seguintes, o gato continuou indo à corte para levar caças ao rei, sempre agradando muito ao paladar do soberano. A cada novo presente, afirmava que as carnes vinham das terras de seu patrão, o marquês de Sacobotas.
Um dia, quando estava saindo do palácio, escutou a conversa de dois criados:
__ Amanhã o rei passará de carruagem pelas margens do rio, junto com sua filha, a mais bela moça de todo o reino.
O gato correu logo ao patrão, dizendo:
__ Patrãozinho, se seguir meus conselhos poderá se tornar rico, nobre e feliz.
__ E o que deverei fazer ? __ perguntou o jovem patrão, confiante no gato que herdara.
__ Amanhã você deverá ir ao rio e tomar banho no lugar exato em que eu indicar. O resto, deixe comigo.
No dia seguinte, enquanto se banhava nas águas do rio, o rapaz viu se aproximar o rei, acompanhado pela princesa e por alguns nobres. O gato, que lá estava à espera, saiu de trás de uma moita e começou a gritar, com todo o fôlego:
__ Socorro ! Socorro ! Ajudem o marquês de Sacobotas, ele está se afogando no rio ! Ajudem !
O rei escutou os gritos e reconheceu o gato que tantas vezes lhe levara carnes deliciosas. Imediatamente deu ordem aos guardas para que corressem e acudissem o marquês de Sacobotas.
Enquanto o jovem estava sendo retirado do rio, nosso gato se aproximou da carruagem real dizendo, com o ar mais entristecido do mundo :
__ Majestade, meu patrão estava tomando banho no rio e chegaram uns ladrões, que levaram toda a roupa dele. E agora, como ele poderá apresentar-se a Vossa Majestade inteiramente nu ?
Na verdade, o gato, muito vivo, havia escondido os trapos do moço embaixo de umas pedras... Mas o rei, penalizado, ordenou a um de seus guardas que corresse ao palácio e pegasse umas roupas para o pobre marquês espoliado.
A roupa trazida era esplêndida. Com ela, o falso marquês, que aliás era um jovem bem bonito, ficou com ótima aparência. Logo a princesa se apaixonou pelo jovem, e o rei convidou-o a subir na carruagem, para juntos continuarem o passeio.
Mas e o gato ?
O gato, contente com o sucesso inicial de seu projeto, correu na frente da carruagem, que avançava lentamente.
Um pouco adiante, viu um grupo de lavradores capinando. O gato fez uma careta bem feia e gritou com um vozeirão ameaçador:
__ Atençao ! O rei passará aqui já, já ! Se vocês não disserem que esse campo pertence ao marquês de Sacobotas, serão todos demitidos !
Assustadíssimos, os coitados juraram que obedeceriam. Quando o rei curioso, perguntou aos lavradores a quem pertencia aquele belo campo, estes responderam a uma só voz :
__ Ao senhor marquês de Sacobotas !
E o rei parabenizou seu convidado pela beleza e fertilidade de suas terras. Enquanto isso, nosso gato, sempre bem à frente da comitiva real, parou num canavial em que camponeneses ceifavam.
__ Atenção ! Daqui a pouco o rei passará por aqui. Vocês vão dizer a ele que este canavial pertence ao marquês de Sacobotas. Se não disserem, serão todos presos.
Assustado, os cortadores de cana prometeram obedecer.
E assim fizeram também os criadores de porcos, os vaqueiros, os cultivadores de uvas e tantos mais que o gato encontrou em seu caminho.
Tudo pertencia ao marquês de Sacobotas ! E a estima do rei pelo novo nobre crescia a cada quilômetro percorrido.
Sempre à frente, o gato chegou a um castelo no qual vivia um terrível mago, muito rico. A ele pertenciam todas as terras que o esperto gato atribuíra ao marquês de Sacobotas !
O gato sem dúvida precisava, com urgência, de uma nova idéia brilhante. Como ideias não lhe faltavam, pensou um pouquinho e pediu para ser levado à presença do mago.
Assim que chegou ao salão, curvou-se respeitosamente e começou a fazer elogios :
__ Eu estava passando por estas bandas, meu senhor, e achei que era meu dever homenagear o mais poderoso mago da região. Ouvi falar que o senhor pode se transformar em qualquer animal. Mas eu duvido que isto seja verdade.
__ Quer ver ? __ respondeu o mago, irritado com a provocação.
Em um instante, no lugar do mago estava um leão rugindo, com sua grande boca aberta. O gato levou tamanho susto que por pouco não caiu para trás !
__ E agora, está convencido, seu gato ?
__ Bem, senhor, até certo ponto... Não deve ter sido tão difícil, grandalhão como é, transofrmar-se em um animal enorme. Eu só queria ver se conseguia se transformar em um animal pequeno, como um ratinho, por exemplo. Que tal ? Consegue ?
__ Eu consigo me transformar em qualquer animal, ouviu bem ? __ gritou o mago.
E logo ele virou um ratinho, que começou a correr veloz pela sala toda. Com toda a sua astúcia, o gato devorou-o numa só bocada.
A carruagem real já estava chegando ao castelo. O rei, curioso, quis visitá-lo.
O marquês de Sacobotas nem sabia o que fazer. Por sorte, o gato logo apareceu, cumprimentando:
__ Bem vindo, majestade, ao castelo do marquês de Sacobotas. O rei ficou admirado.
__ Oh ! Não me diga, marquês, que também este belo castelo lhe pertence ? E não falava nada, hein ?
O rei entrou no castelo, acompanhado pelo marquês e pela princesa. No salão principal do luxuoso castelo havia uma comprida mesa, na qual já estava servido um maravilhoso banquete. Os recém-chegados, inclusive o gato, comeram e beberam a fartar, satisfazendo a fome após tão longo passeio.
No final da refeição, o rei, que já estava percebendo os olhares apaixonados da filha para o jovem marquês, tão rico e tão belo, disse:
__ Meu caro marquês, vejo que minha filha tem por você muita simpatia. Se sentir o mesmo por ela, então ofereço-lhe a sua mão.
Não cabendo em si de felicidade, o jovem logo respondeu que sim.
Naquele mesmo dia foram celebradas as bodas, e o filho do lavrador se tornou príncipe.
E o gato, autor de tanta fortuna ? Ele se tornou um senhor... E, se de vez em quando caçava algum rato, era por pura diversão.

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Era uma vez um moleiro muito pobre, que tinha uma filha linda. Um dia ele se encontrou com o rei e, para se dar importância, disse que sua filha sabia fiar palha, transformando-a em ouro.
__ Esta é uma habilidade que me encanta __ disse o rei. __ Se é verdade o que diz, traga sua filha amanhã cedo ao castelo. Eu quero pô-la à prova.
No dia seguinte, quando a moça chegou, o rei levou-a para um quartinho cheio de palha, entregou-lhe uma roca e algumas bobinas e disse :
__ Agora, ponha-se a trabalhar. Se até amanhã cedo não tiver fiado toda esta palha em ouro, você morrerá ! __ Depois saiu, trancou a porta e deixou a filha do moleiro sozinha.
A pobre moça sentou-se num canto e, por muito tempo, ficou pensando no que fazer. Não tinha a menor idéia de como fiar palha em ouro e não via jeito de escapar da morte. O pavor tomou conta da jovem que começou a chorar desesperadamente. De repente, a porta se abriu e entrou um anãozinho muito esquisito.
__ Boa tarde, minha linda menina ! __ disse ele. __ Por que chora tanto ?
__ Ah ! __ respondeu a moça entre soluços. __ O rei me mandou fiar toda esta palha em ouro. Não sei como fazer isso !
__ E se eu fiar para você ? O que me dará em troca ?
__ Dou-lhe o meu colar.
O anãozinho pegou o colar, sentou-se diante da roca e zum-zum-zum : girou-a três vezes e a bobina fichou cheia de ouro. Então começou de novo, girou a roca três vezes e a segunda bobina ficou cheia também. Varou a noite trabalhando assim e, quando acabou de fiar toda a palha e as bobinas ficaram cheias de ouro, sumiu.
No dia seguinte, mal o sol apareceu, o rei chegou e arregalou os olhos assombrado e feliz ao ver todo aquele ouro. Contudo, seu ambicioso coração não se satisfez.
Levou a filha do moleiro para outro quarto um pouco maior, também cheio de palha, e ordenou-lhe que enchesse as bobinas de ouro, caso quisesse continuar viva.
A pobre moça ficou sentada olhando a palha, sem saber o que fazer. “Ah... se o anãozinho voltasse...”, pensou, querendo chorar. Nesse instante a porta se abriu e ele entrou.
__ O que você me dá, se eu fiar a palha ? __ perguntou.
__ Dou-lhe meu anel.
Ele pegou o anel e se pôs a trabalhar. A cada três voltas da roca, uma bobina se enchia de ouro.
No outro dia, quando o rei chegou e viu as bobinas reluzindo de ouro, ficou radiante. Mas ainda dessa vez não se contentou. Levou a moça para outro quarto ainda maior, também cheio de palha, e disse:
__ Você vai fiar esta noite. Se puder repetir essa maravilha, quero que seja minha esposa.
O rei saiu, pensando: “Será que ela é mesmo filha do moleiro ? Bah ! O que importa é que vou me casar com a mulher mais rica do mundo !”.
Quando a moça ficou sozinha, o anãozinho apareceu pela terceira vez e perguntou:
__ O que você me dá, se ainda dessa vez eu fiar a palha ?
__ Eu não tenho mais nada...
__ Se é assim, prometa que me dará seu primeiro filho, se você se tornar rainha.
“Isso nunca vai acontecer”, pensou a filha do moleiro. E, não tendo saída, prometeu ao anãozinho o que ele quis. Imediatamente ele se pôs a trabalhar, girando a roca a noite inteira.
De manhãzinha, quando o rei entrou no quarto, encontrou prontinho o que havia exigido. Cumprindo sua palavra, casou-se com a bela filha do moleiro, que assim se tornou rainha.
Um ano depois, ela deu à luz uma linda criança. Já nem se lembrava mais do misterioso anãozinho. Mas naquele mesmo dia, a porta se abriu repentinamente e ele entrou.
__ Vim buscar o que você me prometeu __ disse.
A rainha ficou apavorada e ofereceu-lhe todas as riquezas do reino, se ele a deixasse ficar com a criança. Mas ele não quis.
__ Não ! Uma coisa viva vale muito mais para mim que todos os tesouros do mundo !
A rainha ficou desesperada; tanto chorou e se lamentou que o anãozinho acabou ficando com pena.
__ Está bem __ disse. __ Vou lhe dar três dias. Se no fim desse prazo você advinhar o meu nome, poderá ficar com a criança.
A rainha passou a noite lembrando os nomes que conhecia e mandou um mensageiro percorrer o reino em busca de novos nomes.
Na manhã seguinte, quando o anãozinho chegou, ela foi dizendo :
__ Gaspar, Melquior, Baltazar __ e assim continuou, falando todos os nomes anotados. Mas a cada um deles o anão respondia balançando a cabeça :
__ Não é esse meu nome !
No segundo dia, a rainha pediu às pessoas da vizinhança que lhe dessem seus apelidos, e fez uma lista dos nomes mais esquisitos, como: João das Lonjuras, Carabelassim, Pernil-mal-assado e outros. Mas a todos a resposta do anão era a mesma :
__ Não é esse meu nome !
No terceiro dia, o mensageiro que andava pelo reino à cata de novos nomes voltou e disse :
__ Não descobri um só nome novo. Mas eu estava andando por um bosque no alto de um monte, onde raposas e coelhos dizem boa-noite uns aos outros, quando vi uma cabana. Diante da porta ardia uma fogueirinha e um anão muito esquisito, pulando num pé só ao redor do fogo, cantava :
__ Hoje eu frito ! Amanhã eu cozinho !
Depois de amanhã será meu o filho da rainha !
Coisa boa é ninguém saber
Que meu nome é
Rumpelstichen !
Pode-se imaginar a alegria da rainha, quando ouviu esse nome. E quando um pouco mais tarde o anãozinho veio e perguntou :
__ Então, senhora rainha, qual é meu nome ?
Ela disse antes :
__ Será Fulano ?
__ Não !
__ Será por acaso Rumpelstichen ?
__ Foi o diabo que te contou ! __ gritou o anãozinho furioso.
E bateu o pé direito com tanta força no chão que afundou até a virilha.
Depois, tentando tirar o pé do buraco, agarrou com ambas as mãos o pé esquerdo e puxou-o para cima com tal violência que seu corpo se rasgou em dois. Então, desapareceu. (Irmãos Grimm)
BRANCA DE NEVE

Um dia, a rainha de um reino bem distante bordava perto da janela do castelo, uma grande janela com batentes de ébano __ uma madeira escuríssima. Era inverno e nevava muito forte. A certa altura, a rainha desviou o olhar para admirar os flocos de neve que dançavam no ar; mas com isso se distraiu e furou o dedo com a agulha.
Na neve que tinha caído no beiral da janela pingaram três gotinhas de sangue. O contraste foi tão lindo que a rainha murmurou :
__ Pudesse eu ter uma menina branquinha como a neve, com lábios vermelhos como o sangue e com os cabelos negros como o ébano...
Alguns meses depois, o desejo da rainha foi atendido. Ela deu à luz uma menina de cabelos bem pretos, pele branca e lábios vermelhos. O nome dado à princesinha foi Branca de Neve.
Mas quando nasceu a menina, a rainha morreu. Passado um ano, o rei se casou novamente. Sua esposa era lindíssima, mas muito vaidosa, invejosa e cruel.
Um certo feiticeiro lhe dera um espelho mágico, ao qual todos os dias ela perguntava, com vaidade :
__ Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu.
E o espelho respondia :
__ Em todo o mundo, minha querida rainha, não existe beleza maior.
O tempo passou. Branca de Neve cresceu, a cada ano mais linda... E um dia o espelho deu outra resposta à rainha.
__ A sua enteada, Branca de Neve, é agora a mais bela.
Invejosa e ciumenta, a rainha chamou um de seus guardas e lhe ordenou que levasse a enteada para a mata e lá a matasse. E que trouxesse o coração de Branca de Neve, como prova de que a missão fora cumprida.
O guarda obedeceu. Mas, quando chegou à mata, não teve coragem de enfiar a faca naquela lindíssima jovem inocente que, afinal, nunca fizera mal a ninguém. Deixou fugir. Para enganar a rainha, matou um veadinho, tirou o coração e entregou-o a ela, que quase explodiu de alegria e satisfação.
Enquanto isso, Branca de Neve fugia, penetrando cada vez mais na mata, ansiosa por se distanciar da madrasta e da morte.
Os animais chegavam bem perto, sem a atacar; os galhos das árvores se abriam para que ela passasse.
Ao anoitecer, quando já não se aguentava mais em pé de tanto cansaço, Branca de Neve viu numa clareira uma casa bem pequena e entrou para descansar um pouquinho.
Olhou em volta e ficou admirada: havia uma mesinha posta com minúsculos sete pratinhos, sete copinhos, sete colherzinhas e sete garfinhos. No cômodo superior estavam alinhadas sete caminhas, com cobertas muito brancas.
Branca de Neve estava com fome e sede. Experimentou, então, uma colher da sopa de cada pratinho, tomou um gole do vinho de cada copinho e deitou-se em cada caminha, até encontrar a mais confortável. Nela se ajeitou e dormiu profundamente.
Os donos da casa voltaram tarde da noite; eram sete anões que trabalhavam numa mina de diamantes, dentro da montanha.
Logo que entraram, viram que faltava um pouco de sopa nos pratos, que os copos não estavam cheios de vinho... Estranho.
Lá em cima, nas camas, as cobertas estavam mexidas... E na última cama __ surpresa maior ! __ estava adormecida uma linda donzela de cabelos pretos, pele branca como a neve e lábios vermelhos como o sangue.
__ Como é linda ! __ murmuraram em coro.
__ E como deve estar cansada __ disse um deles __, já que dorme assim.
Decidiram não incomodar; o anão dono da caminha onde dormia a donzela passaria a noite numa poltrona.
Na manhã seguinte, quando despertou, Branca de Neve se viu cercada pelos sete anões barbudinhos e se assustou. Mas eles logo a acalmaram, dizendo-lhe que era muito bem-vinda.
__ Como se chama ? __ perguntaram.
__ Branca de Neve.
__ Mas como você chegou até aqui, tão longe, no coração da floresta ?
Branca de Neve contou tudo. Falou da crueldade da madrasta, da sua ordem para matá-la, da piedade do caçador que a deixara fugir, desobedecendo à rainha, e de sua caminhada pela mata até encontrar aquela casinha.
__ Fique aqui, se gostar... __ propôs o anão mais velho.
__ Você poderia cuidar da casa, enquanto nós estamos na mina, trabalhando. Mas tome cuidado enquanto estiver sozinha. Cedo ou tarde, sua madrasta descobrirá onde você está, e se ela a encontrar... Não deixe que ninguém entre ! É mais seguro.
Assim começou uma vida nova para Branca de Neve, uma vida de trabalho.
E a madrasta ? Estava feliz, convencida de que beleza de mulher alguma superava a sua. Mas, um dia, teve por acaso a idéia de interrogar o espelho mágico:
__ Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu?
E o espelho respondeu com voz grave :
__ Na mata, na casa dos mineiros, querida rainha, está Branca de Neve, mais bela que nunca !
A rainha entendeu que tinha sido enganada pelo guarda : Branca de Neve ainda vivia. Resolveu agir por si mesma, para que não houvesse no mundo inteiro mulher mais linda do que ela.
Pintou o rosto, colocou um lenço na cabeça e, irreconhecível, disfarçada de velha mercadora, procurou pela mata a casinha dos anões. Quando achou, bateu à porta e Branca de Neve, ingenuamente, foi atender. A malvada ofereceu-lhe suas mercadorias, e a princesa apreciou um lindo cinto colorido.
__ Deixe-me ajudá-la a experimentar o cinto. Você ficará com uma cintura fininha __ disse a falsa vendedora, com uma risada irônica e estridente, apertando cada vez mais o cinto.
E apertou tanto, tanto que Branca de Neve se sentiu sufocada e desmaiou, caindo como morta. A madrasta fugiu.
Pouco depois, chegaram os anões. Assustaram-se ao ver Branca de Neve estirada e imóvel. O anão mais jovem percebeu o cinto apertado demais e imediatamente o cortou. Branca de Neve voltou a respirar e a cor, aos poucos, começou a voltar a sua face; melhorou e pôde contar o ocorrido.
__ Aquela velha vendedora ambulante era a rainha disfarçada __ disseram logo os anões. __ Você não deveria tê-la deixado entrar. Agora, seja mais prudente.
Enquanto isso, a perversa rainha, já no castelo, consultava o espelho mágico e se surpreendeu ao ouvi-lo dizer :
__ No bosque, na casa dos anões, minha querida rainha, há Branca de Neve, mais bela que nunca.
Seu plano fracassara ! Tentaria novamente.
No dia seguinte, Branca de Neve viu chegar uma camponesa de aspecto gentil, que colocou na janela uma apetitosa maça, sem dizer nada, apenas sorrindo um sorriso desdentado. A princesinha nem suspeitou de que se tratava da madrasta, numa segunda tentativa.
Branca de Neve, ingênua e gulosa, mordeu a maça. Antes de engolir a primeira mordida, caiu imóvel.
Dessa vez, devia estar morta, pois o socorro dado pelos anões, quando regressaram da mina, nada resolveu. Não acharam cinto apertado, nem ferimento algum, apenas o corpo caído.
Branca de Neve parecia dormir; estava tão linda que os bons anõezinhos não quiseram enterrá-la.
__ Vamos construir um caixão de cristal para a nossa Branca de Neve, assim poderemos admirá-la sempre.
O esquife de cristal foi construído e levado ao topo da montanha. Na tampa, em dourado, escreveram: “Branca de Neve, filha de rei”,
Os anões guardavam o caixão dia e noite, e também os animaizinhos da mata __ veadinhos, esquilos e lebres __ todos choravam por Branca de Neve.
Lá no castelo, a malvada rainha interrogava o espelho mágico :
__ Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu ?
A resposta era invariável.
__ Em todo o mundo, não existe beleza maior.
Branca de Neve parecia dormir no caixão de cristal: o rosto branco como a neve, de lábios vermelhos como sangue, emoldurado pelos cabelos negros como ébano. Continuava tão linda como enquanto vivia.
Um dia, um jovem príncipe que caçava por ali passou no topo da montanha. Bastou ver o corpo de Branca de Neve para se apaixonar, apesar de a donzela estar morta. Pediu permissão aos anões para levar consigo o caixão de cristal.
Havia tanta paixão, tanta dor e tanto desespero na voz do príncipe que os anões ficaram comovidos e consentiram.
__ Está bem. Nós o ajudaremos a transportá-la para o vale. A donzela Branca de Neve será sua.
Com o caixão nas costas, puseram-se a caminho. Enquanto desciam por um caminho íngreme, um anão tropeçou numa pedra e quase caiu. Reequilibrou-se a tempo.
O abalo do caixão, porém, fez com que o pedaço da maçã envenenada, que Branca de Neve trazia ainda na boca, caísse. Assim a donzela se reanimou.
Abrindo os olhos e suspirando, sentou-se e, admirada, quis saber :
__ O que aconteceu ? Onde estou ?
O príncipe e os anões, felizes, explicaram tudo.
O príncipe declarou-se a Branca de Neve e pediu-a em casamento. Branca de Neve aceitou, felicíssima. Foram para o palácio real, onde toda a corte os recebeu.
Fora distribuídos os convites para a cerimônia nupcial. Entre os convidados estava a rainha madrasta __ mas ela mal sabia que a noiva era sua enteada.
Vestiu-se a megera suntuosamente, pôs muitas joias e, antes de sair, interrogou o espelho mágico :
__ Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo mulher mais bela do que eu ?
E o fiel espelho :
__ No seu reino, a mais bela é você; mas a noiva Branca de Neve é a mais bela do mundo.
Louca de raiva, a rainha saiu apressada para a cerimônia. Lá chegando, ao ver Branca de Neve, sofreu um ataque : o coração explodiu e o corpo estourou, tamanha era sua ira. Mas os festejos não cessaram um só instante.
E os anões, convidados de honra, comeram, cantaram e dançaram três dias e três noites. Depois, retornaram para sua casinha e sua mina, no coração da mata. (Irmãos Grimm)
www.webnode.com/r/5427938d20197
CHAPEUZINHO VERMELHO

Era uma vez, numa pequena cidade às margens da floresta, uma menina de olhos negros e louros cabelos cacheados, tão graciosa quanto valiosa.
Um dia, com um retalho de tecido vermelho, sua mãe costurou para ela uma curta capa com capuz; ficou uma belezinha, combinando muito bem com os cabelos louros e os olhos negros da menina.
Daquele dia em diante, a menina não quis mais saber de vestir outra roupa senão aquela e, com o tempo, os moradores da vila passaram a chamá-la de “Chapeuzinho Vermelho”.
Além da mãe, Chapeuzinho Vermelho só tinha uma avó bem velhinha, que nem conseguia mais sair de casa. Morava numa casinha no interior da mata.
De vez em quando ia lá visitá-la com sua mãe, e sempre levavam alguns mantimentos.
Um dia, a mãe da menina preparou algumas broas das quais a avó gostava muito, mas, quando acabou de assar os quitutes, estava tão cansada que não tinha mais ânimo para andar pela floresta e levá-las para a velhinha.
Então, chamou a filha :
__ Chapeuzinho Vermelho, vá levar estas broinhas para a vovó. Ela gostará muito. Disseram-me que há alguns dias ela não passa bem e, com certeza, não tem vontade de cozinhar.
__ Vou agora mesmo, mamãe.
__ Tome cuidado, não pare para conversar com ninguém e vá direitinho, sem desviar do caminho certo. Há muitos perigos na floresta !
__ Tomarei cuidado, mamãe, não se preocupe.
A mãe arrumou as broas em um cesto e colocou também um pote de geléia e um tablete de manteiga. A vovó gostava de comer as broinhas com manteiga fresquinha e geléia.
Chapeuzinho Vermelho pegou o cesto e foi embora. A mata era cerrada e escura. No meio das árvores somente se ouvia o chilrear (gorjear – sons agudos) de alguns pássaros e, ao longe, o ruído dos machados dos lenhadores.
A menina ia por uma trilha quando, de repente, apareceu-lhe na frente um lobo enorme, de pelo escuro e olhos brilhantes.
Olhando para aquela linda menina, o lobo pensou que ela devia ser macia e saborosa. Queria mesmo devorá-la num bocado só. Mas não teve coragem, temendo os cortadores de lenha que poderiam ouvir os gritos da vítima. Por isso, decidiu usar de astúcia.
__ Bom dia, linda menina ! __ disse com voz doce.
__ Bom dia ! __ respondeu Chapeuzinho Vermelho.
__ Qual é seu nome ?
__ Chapeuzinho Vermelho.
__ Um nome bem certinho para você. Mas diga-me, Chapeuzinho Vermelho, onde está indo assim tão só ?
__ Vou visitar minha avó, que não está muito bem de saúde.
__ Muito bem ! E onde mora sua avó ?
__ Mais além, no interior da mata.
__ Explique melhor, Chapeuzinho Vermelho.
__ Numa casinha com as venezianas verdes, logo após o velho engenho de açúcar.
O lobo teve uma idéia e propôs :
__ Gostaria de ir também visitar sua avó doente. Vamos fazer uma aposta, para ver quem chega primeiro. Eu irei por aquele atalho lá abaixo, e você poderá seguir por este.
Chapeuzinho Vermelho aceitou a proposta.
__ Um, dois, três e já ! __ gritou o lobo.
Conhecendo a floresta tão bem quanto seu nariz, o lobo escolhera para ele o trajeto mais breve, e não demorou muito para alcançar a casinha da vovó.
Bateu à porta o mais delicadamente possível, com suas enormes patas.
__ Quem é ? __ perguntou a avó.
O lobo fez uma vozinha doce, doce, para responder :
__ Sou eu, sua netinha, vovó. Trago broas feitas em casa, um vidro de geléia e manteiga fresca.
A boa velhinha, que ainda estava deitada, respondeu:
__ Puxe a tranca e a porta se abrirá.
O lobo entrou, chegou ao meio do quarto com um só pulo e devorou a pobre avozinha, antes que ela pudesse gritar.
Em seguida, fechou a porta, enfiou-se embaixo das cobertas e ficou à espera de Chapeuzinho Vermelho.
A essa altura, Chapeuzinho Vermelho já tinha esquecido do lobo e da aposta sobre quem chegaria primeiro. Ia andando devagar pelo atalho, parando aqui e acolá : ora era atraída por uma árvore carregada de pitangas, ora ficava observando o vôo de uma borboleta, ou ainda um ágil esquilo. Parou um pouco para colher um maço de flores do campo, encantou-se a observar uma procissão de formigas e correu atrás de uma joaninha.
Finalmente, chegou à casa da vovó e bateu de leve na porta.
__ Quem está aí ? __ perguntou o lobo, esquecendo de disfarçar a voz.
Chapeuzinho Vermelho se espantou um pouco com a voz rouca, mas pensou que fosse porque a vovó ainda estava gripada.
__ É Chapeuzinho Vermelho, sua netinha. Estou trazendo broinhas, um pote de geléia e manteiga bem fresquinha !
Mas aí o lobo se lembrou de afinar a voz cavernosa antes de responder :
__ Puxe o trinco e a porta se abrirá.
Chapeuzinho Vermelho puxou o trinco e abriu a porta. O lobo estava escondido, embaixo das cobertas, só deixando aparecer a touca que a vovó usava para dormir.
__ Coloque as broinhas, a geléia e a manteiga no guarda-comida, minha querida netinha, e venha aqui, até minha cama. Tenho muito frio, e você me ajudará a me aquecer um pouquinho.
Chapeuzinho Vermelho obedeceu e se enfiou embaixo das cobertas. Mas estranhou o aspecto da avó. Antes de tudo, estava muito peluda ! Seria efeito da doença ? E foi reparando :
__ Oh, vovozinha, que braços longos você tem !
__ São para abraçá-la melhor, minha querida menina !
__ Oh, vovozinha, que olhos grandes você tem !
__ São para enxergar também no escuro, minha menina !
__ Oh, vovozinha, que orelhas compridas você tem !
__ São para ouvir tudo, queridinha !
__ Oh, vovozinha, que boca enorme você tem !
__ É para engolir você melhor !!!
Assim dizendo, o lobo mau deu um pulo e, num movimento só, comeu a pobre Chapeuzinho Vermelho.
__ Agora estou realmente satisfeito __ resmungou o lobo. Estou até com vontade de tirar uma soneca, antes de retomar meu caminho.
Voltou a se enfiar embaixo das cobertas, bem quentinho. Fechou os olhos e, depois de alguns minutos, já roncava. E como roncava ! Uma britadeira teria feito menos barulho.
Algumas horas mais tarde, um caçador passou em frente à casa da vovó, ouviu o barulho e pensou : “Olha só como a velhinha ronca ! Estará passando mal ? Vou dar uma espiada.”
Abriu a porta, chegou perto da cama e... quem ele viu ? O lobo, que dormia como uma pedra, com uma enorme barriga parecendo um grande balão !
O caçador ficou bem satisfeito. Há muito tempo estava procurando esse lobo, que já matara muitas ovelhas e cordeirinhos.
__ Afinal você está aqui, velho malandro ! Sua carreira terminou. Já vai ver !
Enfiou os cartuchos na espingarda e estava pronto para atirar, mas então lhe pareceu que a barriga do lobo estava se mexendo e pensou : “Aposto que este danado comeu a vovó, sem nem ter o trabalho de mastigá-la ! Se foi isso, talvez eu ainda possa salvá-la”.
Guardou a espingarda, pegou a tesoura e, bem devagar, bem de leve, começou a cortar a barriga do lobo ainda adormecido.
Na primeira tesourada, apareceu um pedaço de pano vermelho; na segunda, uma cabecinha loura; na terceira, Chapeuzinho Vermelho pulou fora.
__ Obrigada, senhor caçador, agradeço muito por ter me libertado. Estava tão apertado lá dentro e tão escuro... Faça outro pequeno corte, por favor, assim poderá libertar minha avó, que o lobo comeu antes de mim.
O caçador recomeçou seu trabalho com a tesoura, e da barriga do lobo saiu também a vovó, um pouco estonteada, meio sufocada, mas viva.
__ E agora ? __ perguntou o caçador. __ Temos de castigar esse bicho como ele merece !
Chapeuzinho Vermelho foi correndo até a beira do córrego e apanhou uma grande quantidade de pedras redondas e lisas. Entregou-as ao caçador, que arrumou tudo bem direitinho dentro da barriga do lobo, antes de costurar os cortes que havia feito.
Em seguida, os três saíram da casa, esconderam-se entre as árvores e aguardaram.
Mais tarde, o lobo acordou com um peso estranho no estômago. Teria sido indigesta a vovó ? Pulou da cama e foi beber água no córrego, mas as pedras pesavam tanto que, quando se abaixou, ele caiu na água e ficou preso no fundo do córrego.
O caçador foi embora contente e a vovó comeu com gosto as broinhas. E Chapeuzinho Vermelho prometeu a si mesma nunca mais esquecer os conselhos da mamãe : “Não pare para conversar com ninguém e vá em frente pelo seu caminho”.
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A ONÇA, O MACACO E O BONECO DE CERA


A onça tinha sido ludibriada pelo macaco tantas e tantas vezes que já estava cansada. Certo dia, tomou uma decisão :
__ A partir de agora, chega ! Esse macaco vive me passando a perna. Todos os outros bichos me admiram e me respeitam. Todos têm medo de mim. Só esse danado desse macaco é que vive debochando da minha cara, me enganando. E sempre arruma um jeito de escapar, subindo pelo alto das árvores com aquele rabo comprido, rindo de mim igual a uma hiena. Mas a alegria dele vai acabar, desta vez ele não me escapa.
Aí foi para o mato e encontrou um poço grande, com a água limpinha, uma beleza. A onça falou :
__ Pois é aqui mesmo que esse macaco espertinho vai me pagar. Vou cercar esse poço e tomar conta dele. Quem quiser beber vai ter que passar pertinho de mim.
E assim o fez. Construiu uma cerca enorme em volta de todo o poço e deixou só uma entrada estreitinha. Daí se plantou lá, sentada. Mandou dizer a toda a bicharada que agora ela era a dona de um poço muito bom, de água fresca e limpa. Quem quisesse experimentar, era só aparecer, porque ela queria muito bem a todos os bichos. E que ia ficar sentadinha lá na entrada para cumprimentar os amigos e bater um papinho amistoso. Só tinha um bicho que ela não queria por lá : o macaco.
__ Estou de relações cortadas com ele. Por mim, pode morrer seco com a família toda, que da minha água ele não bebe.
A notícia se espalhou depressa e o macaco foi se arranjando do jeito que podia. Mas o verão foi chegando, o calor apertando. Os rios estavam secos. O macaco pulava de galho em galho, daqui para lá. Arranjava um taquaruçu (árvore, do tupi - de taquara - que alcança grande altura, muito característica no Mato Grosso), furava e chupava a água, mas aquilo não matava a sede. Um dia, ele falou:
__ Chega ! Eu vou lá tomar água naquele poço. Quem essa onça pensa que é ? Por que todo mundo pode e só eu não posso ? Eu vou conferir direito como é esse negócio...
Foi por dentro do mato, pulando de galho em galho, lá pela copa das árvores. Quando estava a uns dez metros do poço, ficou olhando o movimento. A pintada estava lá, sentada. Enorme ! Cada pata medonha e uma boca de meter medo a leão. O macaco pensou :
__ Ai ! tadinho de mim. Uma patada daquelas e era uma vez um pobre macaquinho sedento ! O que é que eu vou fazer ?!
Continuou a olhar. Daqui a um bocadinho, ouviu :
__ Bom dia, comadre onça !
__ Bom dia, comadre raposa ! Como vai ?
__ Ah, comadre ! Minha língua está pegando fogo de tanto calor. A senhora dá licença de beber um pouquinho da sua água ?
__ Claro ! Pode passar, comadre.
A raposa bebeu até se fartar. Bateu um papinho e foi embora.
__ Muito obrigada, comadre onça !
__ Apareça sempre !
Passou um pouquinho e o macaco ouviu :
__ Ô comadre onça, dá licença ?
__ Quem é ? __ perguntou a onça.
__ Sou eu, a cutia. Tá tudo seco por aí, comadre. Eu sou bicho que gosta de água, mas por onde eu ando não há nadica de nada, nem uma gota. Eu vim pedir à senhora para deixar eu beber um pouco do seu poço.
__ Ah, comadre cutia ! O poço é seu. Pode passar.
A cutia se fartou. Bebeu, mergulhou, nadou. Agradeceu e foi embora. Daí a pouco, novamente :
__ Ô de casa !
__ Como vai, compadre tatu ?
__ Comadre, a senhora permite que eu beba um bocadinho da sua água e molhe meu casco ? Está tudo tão seco, o chão está tão duro que é difícil de furar. Debaixo da terra parece um braseiro e eu preciso terminar a minha toca antes que a cachorrada me pegue.
__ Mas é claro que sim, compadre. Só, por favor, toma cuidado para não sujar a água.
O tatu bebeu, bebeu. Molhou o casco. Agradeceu e foi embora. Daí a pouco, novamente :
__ Muuuito bom dia, comadre onça ! Dá licença ?
__ Comadre vaca ! Que bom vê-la por aqui. Mas será que a senhora passa nessa entradinha que eu fiz aqui ? Deixa eu afastar um pedaço da cerca para a senhora não se machucar. Eu fiz essa passagem tão estreitinha para poder pegar aquele safado daquele macaco. Mas ele não aparece mesmo. É um covardão !
__ Ah, comadre onça. Ele está andando por aí. Agora mesmo eu estava pastando e vi o rabo dele pendurado no alto de uma árvore.
__ Não diga !
__ Vi, sim senhora. Não leva muuuito tempo e ele chega aqui para tentar tomar água.
A onça levantou, olhando ao redor :
__ Está rondando, né ? Deixa estar ! Ele aqui não põe os pés sem virar comida de onça.
A vaca foi embora. Veio o coelho, o tamanduá, a paca, a ema, a capivara, o lagarto, o veado, e assim foram vindo todos os bichos. Sempre muito bem recebidos pela “simpática” onça.
O macaco já não se aguentava de tanta sede e sem coragem de se arriscar. Nisso, ia passando um homem com um carrinho cheio de mel. Um dos garrafões estava meio aberto e o mel ia entornando pelo caminho. O macaco teve uma idéia. Correu até lá e rolou naquele mel até se lambuzar bem. Depois se encheu de folha de tudo que é tipo e tamanho. Ficou todo coberto. Falou :
__ Não é que eu fiquei parecido com um lagarto ?
E foi ter no poço. Afinou a voz :
__ Dá licença, comadre querida !
__ Quem é você ?
__ Sou comadre lagarta. Ah, querida comadre, estou tão cansada, com tanta sede que quase nem posso andar direito. Estou me arrastando !
__ É, comadre. A senhora não me parece muito bem mesmo. Pode entrar e ficar à vontade, que hoje está fazendo muito calor. Eu estou aqui na modorra. (sonolência)
O macaco se fartou. Bebeu até a barriga estufar. Quando se satisfez, passou pela onça sonolenta e disse, sem disfarçar a voz :
__Tchau, queridinha !
A onça pulou, reconhecendo o logro. (conseguir, lucrar,auferir) Tentou alcançar o macaco, mas este foi mais esperto e saiu rindo da cara da onça :
__ Quiá, quiá, quiá, quiá ! Desta vez matei a minha sede. Acho que agora vai ser difícil voltar a beber desse poço, mas eu insisto, persisto e não desisto e vou tentar novamente, ora se vou...
Enquanto isso, a onça resmungava entre dentes :
__ Miserável ! Sem-vergonha ! Biltre ! (que se comporta de maneira vil) Cocozinho ! Bem que eu achei que aquele bicho tinha alguma coisa estranha. Lagarta é comprida, mas não é tão gorda. Eu me vingo. Vou lá na casa daquele homem que vende mel de abelha. Ele tem um bocado de cera. Eu vou lá. Macaco desgraçado...
Foi, inventou uma história que queria fazer um jarro de cera para guardar água em casa. O homem pegou um bolão de uns cinco quilos de cera. Deu à onça.
A onça pegou a cera, pôs no sol para amolecer e começou a amassar em cima de uma pedra. Amassou, amassou. A sujeira da pedra foi grudando na cera e ela foi escurecendo. Quando estava bem macia, a onça começou a moldar. Fez uma cabeça, colocou os olhos e a boca. Fez o corpo, as pernas e os braços. Ficou um boneco grande. Pegou um galho de árvore e fincou o boneco lá na entrada do poço. Arranjou umas pálpebras postiças e pôs na cara dele. Conforme o vento dava, parecia que ele piscava os olhos. Aquilo dava a impressão de ser uma pessoa de verdade, ou melhor, um menino negro, pois a cera ficou pretinha de tanta sujeira que pegou.
Enquanto isso, o macaco pensava :
__ Estou com muita sede de novo. Preciso arrumar um jeito de beber a “minha agüinha” lá naquele poço. Como é que eu vou fazer? Ah, já sei. Vou lá naquele barreiro vermelho.
Chegou lá e espalhou o barro pelo corpo todo. Espalhou pelo rabo até ele ficar grudadinho, como se não existisse. Passou bastante no pelo, até não restar nem um pouquinho de fora. Saiu com as quatro patas no chão, meio manquitolando. Quando estava perto, viu aquele negócio parado na entrada do poço.
__ Eta !, que a pintada arrumou um ajudante e o pôs de vigia. Mas não passa de um moleque. Já sei que jeito eu vou dar nele.
Foi andando. O sol estava quente. A cera começava a amolecer com o calor. O macaco foi se aproximando. O vento batia e o moleque piscava os olhos, lá parado. O macaco falou :
__ Ô, seu moleque, sai da frente que eu quero passar !
O boneco parado, sacudindo as pálpebras.
__ Moleque, sai da frente senão eu te meto a mão. Tô avisando...
O moleque continuava piscando.
__ Vou te encher de bolacha. Pára de ficar piscando para mim e sai logo desse caminho.
E slapt ! O macaco meteu um tabefe na cara do boneco de cera. A cera estava grudenta e a mão dele agarrou. Ele falou :
__ Moleque atrevido, solta a minha mão ou eu te meto a outra mão na cara que você vai se arrepender de tanto atrevimento.
O moleque piscava. O macaco estava nervoso, com medo de a onça estar ali por perto. Não conversou : slapt ! Meteu com a outra mão na cara do boneco. Ficou preso.
__ Solta as minhas mãos, moleque ! Larga ! Eu to mandando. Vou te meter o pé, heim ?!
Meteu um pé. Agora o macaco tinha as duas mãos e um pé presos ao boneco. Insistiu :
__ Mas você é muito abusado mesmo. Fica só piscando sem parar. Me larga senão eu vou te chutar com o outro pé que você vai parar lá na China. Me solta, moleque !
Meteu. Grudou. Apavorado, com medo de a comadre onça chegar, fez mais uma tentativa :
__ Eu te meto a barriga, moleque de uma figa ! Te meto a barriga que a cara eu não vou meter que preciso vigiar comadre onça.
Desta vez, o macaco ficou completamente agarrado ao boneco. A onça, que estava escondida assistindo a tudo, saiu de seu esconderijo e falou :
__ Peguei ! Finalmente te peguei, seu cretino ! Vive me enganando, se disfarçando de bicho. Olha só que ridículo todo coberto de lama. Desta vez você vinha disfarçado de quê ?
__ Ah, eu ia te enganar novamente se não fosse este moleque aqui. Eu não estou parecido com uma capivara ?
__ Capivara ? Capivara você vai ver é no meu bucho. Meu jantar hoje vai ser macaco.
O macaco falou :
__ Olha, dona onça, a senhora pode até me comer, não tiro sua razão. Mas desta vez eu não vim aqui beber água, vim dar um recado que eu recebi de São Pedro.
A onça, atônita, exclamou :
__ Hã ?!
__ É, sim senhora. Pode acreditar em mim. São Pedro me pediu e tornou a pedir que avisasse a todos os bichos que ele vai mandar uma grande tempestade, com muita ventania, que vai varrer a floresta toda. Ele me disse que é para eu amarrar todos os bichos, um por um, em árvores bem fortes para que eles possam escapar com vida. Eu vim aqui dizer que se comadre onça quiser, eu posso amarrá-la também.
A onça era medrosa, acreditou na conversa do macaco e pediu :
__ Ai ! compadre, então me amarra primeiro. Me amarra logo que eu não quero morrer soprada. Como você vai me amarrar ?
__ Eu já separei uns cipós bem grossos. Assim não vai haver vento que a carregue.
O macaco deu sorte que o tempo começou a fechar e umas nuvens cobriram o sol.
__ A senhora tá vendo, dona onça. A tempestade já vem por aí...
__ Corre, compadre. Amarra logo esta pobre oncinha. Eu perdoo tudo o que o senhor me fez até hoje. Salva minha vida, compadre. Me amarra bem amarradinha.
O macaco amarrou a onça. Apertou, apertou. A onça reclamou. Ele disse que se não apertasse daquele jeito, a tempestade poderia levá-la, o vento poderia desamarrá-la. Depois dela bem amarrada, o macaco falou :
__ Está ouvindo a trovoada, comadre ?
__ lh, compadre, estou ouvindo uma coisa, sim. É trovão ?
O macaco disfarçava e fazia : caaaabrummm !
__ É trovão, sim, compadre. O aguaceiro já está para cair.
O macaco foi pegar umas varas de mamona que ele tinha separado e escondido. Daí, sapecou a lenha no lombo da pintada : chulap !
__ Vai chuva, comadre !
__ Pode vir, compadre.
Lepo ! Lepo ! Chulap !
__ Aí ! É chuva de granizo, compadre. As pedras tão caindo no meu lombo. Ai, que dor !
Depois de muito apanhar, a onça percebeu que aquela chuva não estava molhando. Como estava amarrada, não pôde reagir. O macaco bateu até cansar e largou a onça lá, desmaiada. Então, foi dormir no galho mais alto da árvore.
No dia seguinte, a onça tinha sumido. Daí, o macaco pegou a família, se mudou dali e nunca mais voltou àquela parte da floresta.
Entrou por perna de pinto.
Saiu por uma perna de pato.
Quem quiser que conte quatro.
(versão de Lisaldina Paixão, publicada em contos populares fluminenses, de Ana Rita Paixão)
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O MACACO E O RABO

Um macaco uma vez pensou em fazer fortuna. Para isso foi-se colocar por onde tinha de passar um carreiro com seu carro. O macaco estendeu o rabo pela estrada por onde deviam passar as rodeiras do carro. O carreiro, vendo isso, disse :
__ Macaco, tira teu rabo do caminho, eu quero passar.
__ Não tiro ! __ respondeu o macaco.
O carreiro tangeu os bois, e o carro passou por cima do rabo do maçado, e cortou-o fora. O macaco, então, fez um barulho muito grande:
__ Eu quero meu rabo, ou então dê-me uma navalha...
O carreiro lhe deu uma navalha, e o macaco saiu muito alegre a gritar:
__ Perdi meu rabo ! Ganhei uma navalha !... Tinglin, tinglin, que vou para Angola !...
Seguiu. Chegando adiante, encontrou um negro velho, fazendo cestas e cortando os cipós com o dente.
O macaco:
__ Oh, amigo velho, coitado de você ! Ora, está cortando os cipós com o dente... trouxe esta navalha.
O negro aceitou, e quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar :
__ Eu quero minha navalha, ou então me dê um cesto !
O negro velho lhe deu um cesto e ele saiu muito contente gritando :
__ Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto... Tinglin, tinglin, que vou para Angola !
Segui. Chegando adiante, encontrou uma mulher fazendo pão e botando na saia.
__ Ora, minha sinhá, fazendo pão e botando na saia ! Aqui está um cesto.
A mulher aceitou, e, quando foi botando os pães dentro, caiu o fundo do cesto. O macaco abriu a boca no mundo e pôs-se a gritar:
__ Eu quero o meu cesto, quero o meu cesto, senão me dê um pão!
A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito contente a dizer:
__ Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi meu cesto, ganhei um pão... Tinglin, tinglin, que vou para Angola !
Seguiu. Chegando adiante, encontrou um violeiro. O violeiro estava com fome e o macaco lhe deu o pão. O violeiro comeu todo o pão e o macaco pôs-se a gritar : “Eu quero o meu pão, quero o meu pão, senão me dá sua viola !. O violeiro deu a viola para o macado e dessa vez ele saiu cantando satisfeito: “Perdi meu rabo, ganhei uma navalha, perdi minha navalha, ganhei um cesto, perdi um cesto, ganhei um pão, perdi um pão ganhei uma viola... Tinglin, tinglin, que vou para Angola !... Seguiu e, pelo tempo que passou, já deve ter chegado lá !
Chegando lá ou não.... com um rabo novamente crescido....
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O MACACO E O RABO (2)

Na beira da estrada encontram-se o macaco e uma cutia no momento em que vinha passando na mesma estrada um carro de bois cantando. O macaco disse para a cutia :
__ Tira o teu rabo da estrada, senão o carro passa e corta.
Embebido nesta conversa, não reparou o macaco que ele é que corria o maior risco, e veio o carro e passou em riba do rabo dele e de novo o macaco sem o rabo. Estava um gato escondido dentro de uma moita, saltou no pedaço do rabo do macaco e correu. Correu também o macaco atrás, pedindo o seu pedaço de rabo. E com muita experiência em perder o rabo e os prejuízos que teve com o primeiro rabo, perguntou ao gato: o que queres para me devolver meu rabo?
O gato disse:
__ Só te dou, se me deres leite.
__ Onde tiro leite ? __ disse o macaco.
Respondeu o gato :
__ Pede à vaca.
O macaco foi à vaca e disse :
__ Vaca, dá-me leite para dar ao gato, para o gato dar-me o meu rabo.
__ Não dou; só se me deres capim ! __ disse a vaca.
__ Donde tiro capim ?
__ Pede àquela senhora !
__ Senhora, dá-me capim, para eu dar à vaca, para a vaca dar-me leite, e com o leite darei ao gato e ele me dará o meu rabo.
__ Não dou; só se me deres uns sapatos.
__ Donde tiro sapatos ?
__ Pede ao sapateiro.
Será que o macaco encontrará um sapateiro !!!
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OS SETE CORVOS

Era uma vez um homem que tinha sete filhos, todos meninos, e vivia suspirando por uma menina. Afinal, um dia, a mulher anunciou-lhe que estava mais uma vez esperando criança.
No tempo certo, quando ela deu à luz, veio uma menina. Foi imensa a alegria deles. Mas, ao mesmo tempo, ficaram muito preocupados, pois a recém-nascida era pequena e fraquinha, e precisava ser batizada com urgência.
Então, o pai mandou um dos filhos ir bem depressa até a fonte e trazer água para o batismo. O menino foi correndo e, atrás dele, seus seis irmãos. Chegando lá, cada um queria encher o cântaro primeiro; na disputa, o cântaro caiu na água e desapareceu.
Os meninos ficaram sem saber o que fazer. Em casa, como eles estavam demorando muito, o pai disse, impaciente :
__ Na certa, ficaram brincando e se esqueceram da vida !
E, cada vez mais angustiado, exclamou com raiva :
__ Queria que todos eles se transformassem em corvos !
Nem bem falou isso, ouviu um ruflar de asas por cima de sua cabeça e, quando olhou, viu sete corvos pretos como carvão passando a voar por cima da casa.
Os pais fizeram de tudo para anular a maldição, mas nada conseguiram; ficaram tristíssimos com a perda dos sete filhos. Mas, de alguma forma, consolaram-se com a filhinha, que logo ficou mais forte e foi crescendo, cada dia mais bonita.
Passaram-se anos. A menina nunca soube que tinha irmãos, pois os pais jamais falaram deles. Um dia, porém, escutou acidentalmente algumas pessoas falando dela :
__ A menina é muito bonita, mas foi por culpa dela que os irmãos se desgraçaram...
Com grande aflição, ela procurou os pais e perguntou-lhes se tinha irmãos e onde eles estavam. Os pais não puderam mais guardar segredo. Disseram que havia sido uma predestinação do céu, mas que o batismo dela fora a inocente causa.
A partir desse momento, não se passou um dia sem que a menina se culpasse pela perda dos irmãos, pensando no que fazer para salvá-los. Não tinha mais paz nem sossego.
Um dia, ela fugiu de cada, decidida a encontrar os irmãos onde quer que eles estivessem nesse vasto mundo, custasse o que custasse.
Levou consigo apenas um anel de seus pais como lembrança, um pão grande para quando tivesse fome, um cantil de água para matar a sede e um banquinho para quando quisesse descansar.
Foi andando, andando, afastando-se cada vez mais... e assim chegou ao fim do mundo.
Então, foi falar com o sol. Mas ele era assustador, quente demais e comia crianças.
A menina fugiu e foi falar com a lua. Ela era horrorosa, mais fria que o gelo, e também comia crianças. Quando viu a menina, disse com um sorriso mau :
__ Hum, hum... que cheirinho bom de carne humana !
A menina se afastou correndo e foi falar com as estrelas. Encontrou-as sentadas, cada uma na sua cadeirinha. Todas elas foram bondosas e amáveis com ela. A Estrela d’Alva ficou em pé e lhe deu um ossinho de frango, dizendo :
__ Sem este ossinho, você não poderá abrir a Montanha de Cristal, e é na Montanha de Cristal que estão seus irmãos.
A menina pegou o ossinho, embrulhou-o num pedaço de pano e de novo pôs-se a andar.
Andou, andou e, afinal, chegou à Montanha de Cristal. O portão estava fechado; quando desembrulhou o paninho para pegar o osso, ele estava vazio ! Ela havia perdido o presente da estrela...
E agora, o que fazer ? Queria salvar os irmãos, mas não tinha mais a chave da Montanha de Cristal.
Sem pensar muito, meteu o dedo indicador dentro do burado da fechadura e girou-o, mas o portão continuou fechado.
Então, pegou uma faca em sua trouxinha, cortou fora um pedaço do dedo mindinho, meteu o pedaço do dedo na fechadura: felizmente, o portão se abriu.
Assim que ela entrou, um anãozinho veio a seu encontro :
__ O que esta procurando, minha menina ?
__ Procuro meus irmãos, os sete corvos.
__ Os senhores Corvos não estão em casa e vão se demorar bastante. Mas se quiser esperar, entre e fique à vontade.
Assim dizendo, o anãozinho foi para dentro e voltou trazendo a comida dos corvos em sete pratinhos e a bebida em sete copinhos. A menina comeu um bocadinho de cada prato e bebeu um golinho de cada copo, mas deixou cair o anel que trouxera dentro do último copinho.
Nesse momento, ouviu-se um zunido e um bater de asas no ar.
__ São os senhores Corvos que vêm vindo __ explicou o anãozinho.
Eles entraram, quiseram logo comer e beber e se dirigiram para seus pratos e corpos. Então um disse para o outro :
__ Alguém comeu no meu prato ! Alguém bebeu no meu copo ! E foi boca humana !
E quando o sétimo corvo acabou de beber a última gota de seu copo, o anel rolou até seu bico. Ele reconheceu o anel de seus pais e exclamou :
__ Queira Deus que nossa irmãzinha esteja aqui ! Então, estaremos salvos !
Ao ouvir esse pedido, a menina, que estava atrás da porta, saiu e foi ao encontrol deles. Imediatamente, os corvos recuperaram a forma humana.
Abraçaram-se e beijaram-se na maior alegria e, muito felizes, voltaram todos para casa. (Irmãos Grimm)
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JOÃOZINHO-SEM-MEDO

Era uma vez um menino chamado Joãozinho-sem-medo, pois não tinha medo de nada. Andando pelo mundo, pediu abrigo em uma hospedaria.
__ Aqui não tem lugar __ disse o dono. __ Mas se você não tem medo, posso mandá-lo para um palácio.
__ Por que eu sentiria medo ?
__ Porque ali todo mundo sente. Ninguém saiu de lá, a não ser morto. De manhã, a Companhia leva o caixão para carregar quem teve a coragem de passar a noite lá.
Imaginem Joãozinho ! Levou um candeeiro, (dispositivo que serve para distribuir, filtrar ou transformar a luz – luminária) uma garrafa, uma linguiça, e lá se foi.
À meia-noite, estava comendo sentado à mesa quando ouviu uma voz saindo da chaminé :
__ Jogo ?
E Joãozinho respondeu :
__ Jogue logo !
Da chaminé desceu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho.
Depois a voz tornou a perguntar :
__ Jogo ?
E Joãozinho :
__ Jogue logo !
E desceu outra perna de homem. Joãozinho mordeu a linguiça. De novo:
__ Jogo ?
__ Jogue logo !
E desceu um braço. Joãozinho começou a assobiar.
__ Jogo ?
__ Jogue logo !
Outro braço.
__ Jogo ?
__ Jogue !
E caiu um corpo, que se colou nas pernas e nos braços, ficando em pé um homem sem cabeça.
__ Jogo ?
__ Jogue !
Caiu a cabeça e pulou em cima do corpo. Era um homenzarrão gigantesco, e Joãozinho levantou o copo dizendo :
__ À saúde !
O homenzarrão disse :
__ Pegue o candeeiro e venha.
Joãozinho pegou o candeeiro, mas não se mexeu.
__ Passe na frente ! __ disse Joãozinho.
__ Você ! __ disse o homem.
__ Você. __ disse Joãozinho.
Então, o homem se adiantou e, de sala em sala, atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando o caminho. Embaixo de uma escadaria havia uma portinhola.
__ Abra ! __ disse o homem a Joãozinho.
E Joãozinho :
__ Abra você !
E o homem abriu com um empurrão. Havia uma escada em caracol.
__ Desça __ disse o homem.
__ Primeiro você __ disse Joãozinho.
Desceram a um subterrâneo, e o homem indicou uma laje no chão.
__ Levante !
__ Levante você ! __ disse Joãozinho. E o homem a ergueu como se fosse uma pedrinha.
Embaixo da laje havia três tigelas cheias de moedas de ouro.
__ Leve para cima ! __ disse o homem.
__ Leve para cima você ! __ disse Joãozinho. E o homem levou uma de cada vez para cima.
Quando foram de novo para a sala da chaminé, o homem disse :
__ Joãozinho, quebrou-se o encanto !
E arrancou-se uma perna, que saiu esperneando pela chaminé.
__ Destas tigelas, uma é sua.
Arrancou-se um braço, que trepou pela chaminé.
__ Outra é para a Companhia, que virá buscá-lo pensando que está morto.
Arrancou-se também o outro braço, que acompanhou o primeiro.
__ A terceira é para o primeiro pobre que passar.
Arrancou-se outra perna e ele ficou sentado no chão.
__ Pode ficar com o palácio também.
Arrancou-se o corpo e ficou só a cabeça no chão.
__ Porque se perdeu para sempre a estirpe (etnia, ascendência, casta, espécie, família, genealogia, origem) dos proprietários deste palácio.
E a cabeça se ergueu e subiu pelo buraco da chaminé.
Assim que o céu clareou, ouviu-se um canto :
__ Miserere mei, miserere mei.
Era a Companhia com o caixão, que vinha recolher Joãozinho morto. E o viram na janela, fumando cachimbo.
Joãozinho-sem-medo ficou rico com aquelas moedas de ouro e morou feliz no palácio. Até um dia em que, ao se virar, viu sua sombra e levou um susto tão grande que morreu. (Ítalo Calvino)
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AS ROUPAS NOVAS DO IMPERADOR

Há muito, muito tempo, vivia em um reino distante um imperador vaidosíssimo.
Seu único interesse eram as roupas. Pensava apenas em trocar de roupas, várias vezes ao dia; desfilava vestes belíssimas, luxuosas e muito caras para a corte.
Um belo dia, chegaram à capital do reino dois pilantras, muito habilidosos em viver à custa do próximo.
Assim que os dois souberam da fraqueza do imperador por belas roupas, espalharam a notícia de que eles eram especialistas em tecer um pano único no mundo, de cores e padrões deslumbrantes. E o mais impressionante, segundo eles: as roupas confeccionadas com aquele tecido tinham o poder de ser invisíveis para as pessoas tolas ou que ocupassem um cargo sem merecê-lo.
O imperador logo se entusiasmou com a idéia de ter roupas não só bonitas, mas também úteis para desmascarar os bobos e os que não mereciam cargos na corte. E tratou de mandar chamar tão habilidosos tecelões.
__ Ponham-se logo a meu serviço. Quero uma roupa sob medida, a mais linda que já tenham feito.
__ Majestade, necessitamos de uma sala, de um tear, de fios de seda e de ouro e, principalmente, de que ninguém nos incomode.
Foram logo atendidos. Uma hora depois estava diante do tear, fingindo tecer sem parar. E assim continuaram por muitos dias, pedindo cada vez mais seda, mais ouro... e mais dinheiro, é claro !
O imperador estava curioso e um dia resolveu enviar seu velho primeiro-ministro para inspecionar a obra dos tecelões.
“É ele um ministro sábio e fiel”, pensou o rei. “Com certeza, conseguirá ver esse tecido tão extraordinário e nada me esconderá.”
Mas, quando o velho ministro chegou em frente ao tear, nada viu. Preocupou-se. Ficou em dúvida.
__ Mas isso não significa que eu não seja digno do cargo que ocupo __ disse a si mesmo, aflito.
Aos tecelões, porém, que lhe perguntavam com insistência se o padrão do tecido era de seu agrado, se as cores se harmonizavam, ele respondeu entusiasmado:
__ Mas claro ! É magnífico. Nunca vi coisa igual.
O ministro levou ao conhecimento do imperador os progressos da confecção e, por precaução, elogiou o extraordinário bom gosto dos dois profissionais. Por nada neste mundo admitiria ter olhado para um tear vazio.
Na cidade já não se falava em outra coisa, senão da nova roupa do imperador e de seus poderes mágicos. Dizia-se que custaria uma fortuna, mas que bem valia o preço: poderia desmascarar ministros e secretários !
Na corte, em compensação, muitos impostores e aproveitadores do cofre do eino não dormiam tranquilos e aguardavam com temor o momento em que o imperador iria, enfim, vestir a tão famosa e denunciadora roupa.
Transcorreram mais cinco ou seis dias, e o imperador, que não aguentava mais esperar, resolveu ir em pessoa visitar os tecelões.
Com uma comitiva de guardas e escudeiros, e acompanhado por seu fiel primeiro-ministro, que tremia de medo, foi ver o trabalho dos dois impostores, sendo recebido com enorme solenidade e muitas explicações.
__ Nunca teríamos ousado esperar tanto, Majestade. Sua visita e sua satisfação são o maior reconhecimento ao nosso trabalho... Aprovando Vossa Majestade nosso humilde trabalho, ficaremos extremamente lisonjeados. Será muito honra.
Após tanta bajulação, o imperador e sua comitiva foram conduzidos à sala do tear.
__ Majestade, observe a extraordinária beleza e perfeição do desenho __ disse o velho ministro com voz trêmula.
O imperador permanecia calado: estava assombrado ! Ele não via nada, apenas o tear vazio, totalmente vazio ! Isto queria dizer que era um bobo ou não era digno de ser imperador.
“Coitado de mim !”, pensou. “Nada poderia ser pior, tenho que dar um jeito para não descobrirem a verdade.”
Resolveu reagir e afastar o perigo de um possível desmascaramento. Aproximou-se do tear, segurando seu monóculo, fingindo admirar o tecido invisível.
__ Hein ?... Sim, é claro... É realmente uma beleza. Um trabalho e tanto. E a comitiva toda fez um coro de elogios e mais elogios.
Nenhum membro do séquito irira confessar não estar vendo nada de nada, pois ninguém queria passar por tonto, ou ser considerado indigno do cargo que ocupava.
Os espertos tecelões sorriam, satisfeitos. O temor dos poderosos representava mais seda, mais ouro e mais dinheiro.
__ Vossa Majestade, então, aprova o nosso trabalho ? __ perguntaram eles, com malícia e ironia.
O imperador disse que estava satisfeito e, para demonstrar seu reconhecimento, presenteou os dois pilantras com um saco cheio de ouro.
Mas continuava preocupado e perplexo. Seria indigna sua realeza? Seria ele um incompetente?
__ Majestade __ falou o primeiro-ministro. __ Por que com esse tecido não manda confeccionar uma roupa especial para o torneio
do próximo domingo ?
__ Sim, sim, claro __ resmungou o imperador. __ Estou mesmo querendo uma roupa nova para o torneio.
Foi dada nova incumbência aos tecelões, que pegaram a fita métrica e tiraram as medidas do rei, fingindo entender do ofício.
__ A cauda, Majestade, deverá ser muito longa ?
__ Claro que sim, muito comprida. Arrastando-se por metros atrás de mim.
__ E o laço ? Prefere de veludo ou de cetim ?
__ Podem sugerir, confio no gosto de vocês.
O imperador voltou ao palácio transtornado, e os dois impostores continuavam a trabalhar na frente do tear vazio. Nem sequer pararam durante a noite. Empenhados na farsa, trabalhavam à luz de vela.
Alguém que, por curiosidade, foi espiar por uma fresta da porta, viu-os atarefados, cortando o ar com uma grande tesoura e costurando com uma agulha sem linha.
Dois dias depois, na manhã do domingo, os tecelões se apresentaram na corte, levando a roupa para o torneio. Mantinham os braços levantados, como se estivessem segurando algo muito delicado e volumoso. Ninguém via nada __ pois nada havia para ser visto __, mas ninguém, também, ousou confessar. Quem assumiria ser tolo ou incompetente ?
Os dois charlatões correram ao encontro do imperador, assim que este apareceu na porta do salão.
__ Vossa Majestade gostaria de vestir suas roupas novas agora ? __ perguntou, irônico, o primeiro.
O imperador disse que queria vesti-las logo. Foi para a frente de um grande espelho e tirou as roupas que vestia. Os tecelões fingiram entregar ao imperador primeiro a túnica, depois a calça e, enfim, a capa com sua longa cauda.
O imperador, meio despido, sentia muito frio. Até espirrou, mas não podia nem pensar em perguntar se continuava em trajes íntimos.
__ Não é um pouco leve demais este tecido ? __ arriscou.
__ Majestade, a leveza é uma de suas qualidades mais apreciadas. Nem uma aranha poderia tecer uma tela tão impalpável, apesar de termos empregado muitos fios de ouro.
E o imperador se convenceu de que estava vestindo uma roupa fabulosa, embora o oespelho refletisse apenas a imagem de um homem de cueca e camiseta.
Em volta dele, os cortesões se desmanchavam em elogios à nova roupa. Finalmente, a toalete terminou: tomara banho, perfumara-se, penteara-se e vestira a tão falada roupa.
No pátio do palácio já estavam a postos quatro soldados em trajes de gala, segurando um dossel (designação atribuída a armação feita e forrada de madeira e forrada de seda ou damasco) sob o qual o imperador se protegeria até a praça dos torneios.
__ Vossa Majestade está pronto? A roupa é do seu agrado? __ perguntou um dos charlatões.
__ Não deseja mais nenhuma mudança ? __ perguntou o outro trapaceiro.
O imperador deu mais uma olhada no espelho, perplexo e desconfiado, e respondeu:
__ Claro. Podemos ir.
Os criados de quarto ficaram fingindo recolher do chão a cauda do manto real, os soldados seguraram bem alto o dossel, e o cortejo começou a caminhar.
Ao longo das ruas uma multidão estava à espera do cortejo, a fim de admirar as fabulosas roupas do imperador. Nas janelas e nas sacadas, os curiosos se espremiam, e os comentários eram intermináveis.
__ É a roupa mais linda de todo o guarda-roupa imperial.
__ Que luxo, que elegância !
Naturalmente, ninguém via a roupa tão comentada, mas não iria confessar isso, pois correria o risco de passar por bobo ou incompetente.
O cortejo já tinha atravessado meia cidade, chegando próximo à pra dos torneios.
De repente, um menininho que conseguira um lugar bem na frente, gritou, desapontado:
__ O imperador não está vestido. Como é ridículo, assim quase pelado ! Cadê as roupas novas ?
Muitos o escutaram, alguém repetiu o comentário.
__ Um garotinho está gritando que o imperador está sem roupas...
__ Oh ! É a voz da inocência ! Criança diz tudo que vê.
As palavras, primeiro murmurada, aumentaram de volume e agora eram ditas aos brados pela gente do povo, que ria até não poder mais.
O imperador escutou e ficou corado como um tomate, pois a cada passo que dava se convencia de que aquela gente tinha razão: ele tinha sido redondamente enganado e, na verdade, a tão elogiada roupa não existia. Mas e agora ? Faria o quê ?
Continuou a caminhar, todo orgulhoso, como se nada de estranho ocorresse, acompanhado pelas gargalhadas cada vez mais intensas de seus súditos.
Os dois charlatões nunca mais foram vistos. Fugiram com todo o ouro, e o imperador aprendeu que a vaidade era a pior inimiga do reino.
W E B N O D E
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O ROUXINOL DO IMPERADOR


O palácio do imperador da China era uma das coisas mais bonitas que existiam no mundo. Construído em mármore branco, possuía torres de marfim, paredes revestidas com tecidos de cores variadas e quartos decorados com ouro e prata. Era realmente uma maravilha !
O jardim também era enorme beleza; nele cresciam flores raras e belas. Havia inúmeros rios e lagos, onde nadavam peixes de todas as espécies e tamanhos.
Para além do jardim, estendia-se uma mata, que chegava até o mar. No interior dessa mata, vivia um rouxinol de canto único. De sua pequenina garganta saíam melodias tão emocionantes que faziam chorar quem as escutasse.
Turistas do mundo todo iam admirar o palácio do imperador chinês e ficavam maravilhados diante de tanta beleza. Mas quando ouviam o canto do rouxinol, todos admitiam que aquilo, sim, era a coisa mais bonita e rara do grande império.
Entre os visitantes havia escritores que, ao retornarem a suas pátrias, escreviam livros a respeito do prodigioso pássaro que vivia no centro da mata, próximo ao palácio imperial. E dedicavam a ele os maiores elogios, muito mais do que à maravilhosa casa do imperador chinês.
Um dia, um daqueles livros chegou às mãos do imperador. Depois de lê-lo, o soberano ficou, ao mesmo tempo, surpreso e enfurecido. Mandou logo chamar o primeiro-ministro.
__ Incrível ! No bosque que faz divisa com os jardins imperiais vive um rouxinol cujo canto é incomparável, e eu o desconheço ! Tive de ler um livro estrangeiro para aprender que a maior maravilha de meu país é um pássaro de voz de ouro, e não este meu soberbo palácio ! Diga-me, por que não fui informado ?
__ Eu também ignorava o fato, meu senhor __ respondeu o primeiro-ministro, assustado com a ira do imperador. __ Mas vou descobri-lo.
__ E que seja muito breve. Nesta noite mesmo o rouxinol deverá cantar somente para mim.
O primeiro-ministro iniciou as buscas. Interrogou príncipes e nobres, guardas e cavaleiros. Ninguém sabia da existência de tal ave. Sem nada descobrir, o primeiro-ministro voltou ao imperador.
__ Meu senhor, não se consegue encontrar o rouxinol. Talvez não exista, talvez seja apenas invenção do autor do livro.
Mas o imperador não quis explicações. Exigia o prodigioso rouxinol ! Ou naquela noite o rouxinol cantava para a corte, ou o primeiro-ministro seria punido.
O pobre homem recomeçou a percorrer ruas e praças, perguntando a todos sobre o tal pássaro.
Por fim, encontrou na cozinha imperial uma serviçal que comentou:
__ O rouxinol... Conheço-o, sim. Às vezes, à noite, paro no bosque para ouvir seu canto maravilhoso. Tem uma voz tão bela e harmoniosa que chego a chorar de emoção.
__ Poderia me ajudar a procurá-lo ?
__ Claro que sim, Excelência.
Imediatamente, ele mandou organizar uma comitiva de cavaleiros e cortesãos para, sob orientação da serviçal, ir procurar o rouxinol na mata.
Estavam andando já há algum tempo, quando ouviram um mugido. Os cavaleiros pararam, curiosos.
__ Deve ser o rouxinol cantando. Que voz agradável !
__ Esse foi o mugido de uma vaca __ riu a mulher. __ O rouxinol vive mais longe.
Após longa caminhada, a serviçal parou em frente a uma árvore e mostrou uma ave minúscula, de plumas acastanhadas, que saltitava entre os galhos.
O primeiro-ministro e seu séquito (grupo que segue junto a alguém, geralmente um nobre: rei, rainha...) ficaram desapontados com o aspecto modesto do rouxinol. Nem de longe sua aparência era comparável à beleza do palácio. Porém, quando escutaram sua voz, todos ficaram encantados. E convidaram-no para ir à corte.
O rouxinol aceitou o convite.
Foram feitos grandes preparativos para sua chegada: flores por toda a parte, assoalhos encerados e brilhantes, e uma gaiola toda de ouro, no meio da sala do trono, para o pequeno e ilustre cantor. Sentado no trono, o imperador aguardava com impaciência o momento em que escutaria as maravilhosas melodias que todos comentavam.
Assim que chegou, o rouxinol pousou sobre a gaiola, olhou com respeito o ilustre anfitrião __ o imperador da China __ e começou a cantar. Seu canto era tão comovente que o imperador chorou, emocionado. Terminado o concerto, ele disse para o rouxinol:
__ Fique comigo para sempre, para minha felicidade. Em troca, terá tudo que pedir, tudo que mais o agradar ! Tudo que quiser.
__ Majestade __ respondeu o passarinho. __ Enquanto eu cantava, vi lágrimas em seus olhos. Isto, para mim, é a recompensa maior, não peço mais nada. Se Vossa Majestade assim o deseja, estou pronto para abandonar a mata e alegrar sua vida com minha voz, sempre que quiser.
E assim, o rouxinol ficou no palácio, abrigado na gaiola de ouro pendurada nos aposentos do imperador.
Cantava freqüentemente para seu amo e uma vez por dia dava um passeio no jardim __ mas preso pela patinha a um fio de seda conduzido pelo primeiro-ministro.
Um dia, o imperador da China recebeu um presente de seu amigo, o imperador do Japão: um maravilhoso rouxinol mecânico, todo de ouro. Suas asas eram enfeitadas com diamantes, a cauda exibia safiras e os olhos de rubis.
Bastava girar uma pequena chave e o rouxinol mecânico cantava uma linda melodia. Porém, o rouxinol verdadeiro cantava com o coração e o outro, com molas e cilindros de aço.
As duas vozes não combinavam, e o imperador se aborreceu:
__ Que o rouxinol mecânico cante sozinho ! __ ordenou.
Trinta vezes em seguida o belo brinquedo repetiu a mesma melodia sem mudar uma nota sequer, entre aplausos e elogios da corte que o ouvia.
Na trigésima primeira apresentação, o imperador disse que já era o bastante.
__ E agora, que cante o rouxinol verdadeiro ! __ ordenou.
Mas o passarinho não foi encontrado. Aproveitando-se do descuido geral, tinha voado pela janela aberta em direção à mata, onde sempre vivera em total liberdade. Mas o imperador não ficou triste, pois afinal estava satisfeito com o rouxinol mecânico.
Para que todos os súditos admirassem sem rouxinol, permitiu um espetáculo público. Muitos se deslumbraram. Mas quem já ouvira a voz do rouxinol verdadeiro, na mata, não se convenceu:
__ Há enorme diferença entre os dois...
Não importava a opinião dos outros. O imperador, a cada dia que passava, ficava mais animado com aquele extraordinário brinquedo. O aparelhinho repousava em uma almofada de seda, ao lado da cama do soberano, que a cada momento lhe dava corda, contente com aquele canto sempre igual.
Certa noite, o delicado mecanismo se rompeu, produzindo um ruído estranho. O imperador mandou chamar um experiente relojoeiro, que encontou uma mola quebrada e trocou-a.
Mas avisou ao imperador que o mecanismo já estava bem gasto, e que o rouxinol mecânico só poderia cantar uma vez por ano, para evitar que quebrasse definitivamente.
O imperador ficou muito triste com isso, mas foi obrigado a seguir o conselho do relojoeiro.
Passaram-se os anos, e um dia o imperador adoeceu gravemente. Repousava entre seus lençóis de cetim e as cobertas de seda bordadas, mas, apesar de tanto luxo, estava só.
Nobres e ministros discutiam a sucessão ao trono, médicos pesquisavam novos remédios para receitar ao ilustre doente, a criadagem dormia. Ninguém fazia companhia ao enfermo.
Em certo momento, o imperador abriu os olhos e viu a Morte sentada a seu lado, em seu assustador manto negro, encarando-o silenciosamente.
Entendeu que chegava sua hora, e então se virou para o rouxinol mecânico e sussurrou:
__ Cante, suplico-lhe. Cante, quero escutar sua voz mais uma vez, antes de morrer.
Mas o rouxinol permaneceu calado. Não havia ninguém que lhe desse corda, e ele, sozinho, não podia cantar.
De repente, uma melodia muito doce, enternecedora ressoou nos aposentos. No parapeito da janela, estava o rouxinol verdadeiro. O passarinho soubera da morte inevitável do imperador e viera trazer-lhe seu consolo musical, ainda que sem ouro, brilhantes, safiras e rubis.
A Morte também se pôs a escutar aquele doce canto e, quando o rouxinol se calou, pediu para que continuasse. A música se espalhou pelo amplo aposento e, a cada nota, o imperador se sentia melhor. Enquanto isso, dona Morte foi se afastando devagar.
__ Repouse, agora, Majestade __ disse com carinho o rouxinol. __ Amanhã acordará curado.
E ficou ali, com seus gorjeios, entoando uma suave canção de ninar.
No dia seguinte, ao despertar, o imperador se sentia bem e se levantou. O rouxinol ainda estava no parapeito da janela.
__ Meu salvador ! __ disse-lhe o imperador. __ Fui ingrato com você, ao preferir o rouxinol mecânico. Mas agora pretendo me desculpar. Vou destruir aquele tolo brinquedo, se quiser, mas peço-lhe que nunca mais me abandone.
__ Não me peça isso __ respondeu o rouxinol. __ Vou ficar com muito gosto junto de Vossa Majestade, mas com a condição de não me prender mais na gaiola. Deixe-me livre, permita que eu viva nos bosques. Virei cantar sempre que quiser, e também lhe contarei tudo o que vejo no seu império. Assim, saberá das injustiças que devem ser punidas e das boas ações que merecem recompensa. Seu povo poderá ser bem mais feliz.
O imperador concordou, e o rouxinol foi embora. Mas tarde, na hora em que os cortesões, médicos e empregados entraram no aposento do doente, temendo encontrá-lo morto, viram-no em pé, alegre, feliz e bem-disposto. E nunca souberam, nem sequer imaginaram, o motivo de tal prodígio. (Hans Christian Andersen)
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O PRÍNCIPE-RÃ OU HENRIQUE DE FERRO
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Num tempo que já se foi, quando ainda aconteciam encantamentos, viveu um rei que tinha uma porção de filhas, todas lindas. A mais nova, então, era linda demais. O próprio sol, embora a visse todos os dias, sempre se deslumbrava, cada vez que iluminava o rosto dela.
O castelo real ficava ao lado de uma floresta sombria na qual, embaixo de uma frondosa(bela) tília, (árvore grande que dá flores perfumadas) havia uma fonte. Em dias de muito calor, a filha mais nova do rei vinha sentar-se ali e, quanto se aborrecia, brincava com sua bola de ouro, atirando-a para cima e apanhando-a com as mãos.
Uma vez, brincando assim, a bola de ouro, jogada para o ar, não voltou para as mãos dela. Caiu na relva, rolou para a fonte e desapareceu nas suas águas profundas.
“Adeus, minha bola de ouro !, pensou a princesa. “Nunca mais vou ver você !” E começou a chorar alto. Então uma voz perguntou:
__ Por que chora, a filha mais nova do rei ? Suas lágrimas são capazes de derreter até uma pedra !
A princesa olhou e viu a cabecinha de uma rã fora da água.
__ Foi você que falou, bichinho dos charcos ? Estou chorando porque minha bola de ouro caiu na água e sumiu.
__ Fique tranquila e não chore mais. Eu vou buscá-la. Mas o que você me dará em troca ?
__ Tudo o que você quiser, rãzinha querida. Meus vestidos, minhas joias, e até mesmo a coroa de ouro que estou usando.
__ Vestidos, joias e coroa de ouro de nada me servem. Mas se você quiser gostar de mim, se me deixar ser sua amiga e companheira de brinquedos, se me deixar sentar ao seu lado à mesa, comer no seu prato de ouro, beber no seu copo, dormir na sua cama e me proteter tudo isso, mergulho agorinha mesmo e lhe trago a bola.
__ Claro ! Se me trouxer a bola, prometo tudo isso ! __ respondeu prontamente a princesa, pensando: “Mas que rãzinha boba ! Ela que fique na água com suas iguais ! Imagine se vou ter uma rã por amiga !”.
Satisfeita com a promessa, a rã mergulhou e, depois de alguns minutos, voltou à tona trazendo a bola. Jogou-a na relva, e a princesa, feliz por ter recuperado seu brinquedo predileto, fugiu sem esperar a rã.
__ Pare ! Pare ! gritou a rã, tentando alcança-la aos pulos. __ Me leve consigo ! Não vê que não posso correr tanto ?
A princesa, porém, sem querer saber dela, correu para o palácio, fechou a porta e logo esqueceu a pobre rã. Assim, ela foi obrigada a voltar para a fonte.
No dia seguinte, quando o rei, a rainha e as filhas estavam jantando, ouviram um barulho estranho: Plaft !... Plaft ! ... alguém estava subindo a escadaria de mármore do palácio... O barulho cessou bem em frente à porta, e alguém chamou:
__ Abra a porta, filha mais nova do rei !
A princesa foi atender e, quando deu com a rã, tornou a fechar a porta bem depressa e voltou para a mesa. O rei reparou que ela estava vermelhinha e apavorada.
__ O que foi, filha ? Aí fora está algum gigante, querendo pegar você ?
__ Não, paizinho... é uma rã horrorosa.
__ E o que uma rã pode querer com você ?
__ Ai, paizinho ! Ontem, quando eu brincava com a minha bola de ouro perto da fonte, ela caiu na água e afundou. Então, chorei muito. A rã foi buscar a bola para mim. Mas me fez prometer que, em troca, seríamos amigas e ela viria morar comigo. Eu prometi, porque nunca pensei que uma rã pudesse viver fora da água.
Nesse momento, a rã tornou a bater e cantou:
__ Que coisa mais feia é essa, esquecer assim tão depressa a promessa que me fez ! Se não quiser me ver morta, abra ligeiro essa porta, a filha mais nova do rei !
O rei olhou a filha severamente.
__ O que você prometeu, tem de cumprir __ disse __ Vá lá e abra a porta !
Ela teve de obedecer. Mal abriu a porta, a rã entrou num pulo, foi direto até a cadeira da princesa e, quando a viu sentada, pediu:
__ Ponha-me no seu colo !
Vendo que a filha hesitava, o rei zangou-se.
__ Faça tudo o que a rã pedir __ ordenou.
Mal se viu no colo da princesa, a rã pulou para a mesa, dizendo:
__ Puxe o seu prato mais para perto para podermos comer juntas.
Assim fez a princesa, mas todos viram que ela estava morrendo de nojo. A rã comia com grande apetite, mas a princesa a cada bocado parecia se sufocar. Terminado o jantar, a rã bocejou dizendo:
__ Estou cansada e com sono. Prepare uma cama bem quentinha para nós duas !
Ao ouvir isso, a princesa disparou a chorar. Tinha horror do corpinho gelado e úmido da rã, e não queria dormir com ela de jeito nenhum. Suas lágrimas, porém, só conseguiram aumentar a zanga do rei.
__ Quando você precisou, ela te ajudou. Não pode desprezá-la agora !
Não tendo outro remédio, a princesa foi para o quarto carregando a rã, no chão e foi se deitar sozinha.
__ Que é isso ? __ reclamou a rã. __ Você dorme no macio e eu aqui no chão duro ? Ponha-me na cama, senão vou me queixar ao rei seu pai !
Ao ouvir isso, a princesa ficou furiosa. Agarrou a rã e atirou-a contra a parede com toda a força gritando:
__ Agora você vai ficar quieta para sempre, rã horrorosa !
E qual não foi o seu espanto, ao ver a rã cair e se transformar num príncipe de belos olhos amorosos !
Ele contou-lhe que se havia transformado em rã por artes de uma bruxa, e que ninguém, a não ser a princesa, poderia desencantá-lo. Disse também que no dia seguinte a levaria para o reino dele. Depois, com o consentimento do rei, ficaram noivos.
No outro dia, quando o sol acordou a princesa, a carruagem do príncipe já havia chegado. Era linda ! Estava atrelada a oito cavalos brancos, todos eles com plumas brancas na cabeça, presas por correntes de ouro.
Com ela veio Henrique, o fiel criado do príncipe, que quando seu amo foi transformado em rã ficou tão triste que mandou prender seu coração com três aros de ferro, para que não se despedaçasse de tanta dor. Mas agora, ali estava ele com a carruagem, pronta para levar seu amo de volta ao seu reino.
Cheio de alegria, ajudou os noivos a se acomodar na carruagem, depois tomou seu lugar na parte de trás, e deu sinal de partida.
Já haviam percorrido um trecho do caminho, quando o príncipe ouviu um estalo muito próximo, como se alguma coisa se tivesse quebrado na carruagem. Espiou pela janelinha e perguntou :
__ O que foi, Henrique ? Quebrou alguma coisa na carruagem ?
__ Não, meu senhor __ e ele explicou :
__ Tamanha a dor que eu senti quando o senhor virou rã que, com três aros de ferro, o meu coração eu prendi. Um aro rompeu-se agora, os outros dois com certeza, vão estalar e romper-se assim que chegar a hora !
Duas vezes mais durante a viagem o príncipe ouviu o mesmo estalo. Foram os outros dois aros do coração do fiel Henrique que se romperam, deixando livre sua imensa alegria.
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O NOVELO E A AGULHA

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária! (Apologo - Machado de Assis)
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O PEQUENO POLEGAR

Era uma vez um casal de lenhadores muito, muito pobres, com sete filhos pequenos. Um deles, o caçula, era magro e fraco, mas esperto e inteligente; era conhecido como Polegar, por seu muito pequeno e inteligente; era conhecido como Polegar, por ser muito pequeno ao nascer.
Naquele ano difícil, faltava tudo, praticamente não havia o que comer.
Os dois lenhadores, desesperados com tanta miséria e tantas bocas para alimentar, encontraram uma triste solução: iriam se livrar dos sete filhos esfomeados.
Enquanto os filhos dormiam, pai e mãe planejaram como agiriam para abandonar as crianças.
__ Vamos levar as crianças para a floresta __ disse o lenhador. __ Lá, enquanto juntam lenha, nós as abandonaremos e fugiremos sem que percebam.
Quando o pai pronunciou a última palavra, seus olhos e os de sua esposa estavam cheios de lágrimas.
__ Coitadinhos dos meus filhos __ disse a mãe, soluçando. __ Ficarão sozinhos, sentindo frio, fome e medo das feras do mato...
__ Prefere, então, que morram de fome aqui mesmo conosco, sob nossas vistas ? __ perguntou o pai, também chorando.
Não havia solução. As crianças morreriam, em casa ou na floresta. Então, era melhor que fosse longe, para os pais sofrerem menos. Combinaram que fariam no dia seguinte e foram dormir.
Pela manhã, o casal chamou os filhos e foram todos para a floresta. Enquanto as crianças estavam ocupadas em apanhar bastante lenha, os pais foram se afastando, afastando, até ficarem bem longe.
Quando os sete irmãos perceberam que estavam sozinhos, os seis maiores começaram a chorar. Mas Polegar não desanimou. Encorajou os irmãos propondo que, juntos, procurassem o caminho de casa.
Começaram a caminhar pela floresta mas, infelizmente, quanto mais caminhavam, parecia que estavam mais perdidos e não sabia que rumo seguir.
Chegou a noite, começou a chover e a fazer muito frio; ao longe, os lobos uivavam. Os seis maiores estavam desesperados, amendrontados e desanimados.
Mas Polegar, sempre muito ativo, subiu em uma grande árvore e, lá do alto, viu uma luz brilhar ao longe. Imaginou que seria a luz de uma casa.
Sem hesitar, o garoto desceu da árvore e, guiando os irmãos, começou a andar na direção daquela luzinha distante.
Andaram e andaram, até chegar a uma casa imensa e assustadora.
Polegarzinho bateu à porta e uma mulher veio abrir.
__ Quem são vocês, crianças, e o que querem ?
__ Estamos perdidos na mata. Tenha pena de nós, minha senhora. Estamos com fome e precisamos de um lugar para dormir. Poderia nos abrigar ?
__ Coitados ! Vocês estão sem sorte. Esta é a casa de meu marido, o Gigante, verdadeiro devorador de criancinhas.
Polegar logo respondeu, sem demonstrar medo:
__ Se fircamos na mata, com certeza seremos devorados pelos lobos. Então, já que estamos aqui, preferimos ser devorados pelo Gigante. Aliás, quem sabe ele não se comoverá e nos deixará viver? Já com os lobos, não haverá conversa alguma.
A mulher do Gigante tinha coração mole e se deixou convencer: permitiu que os sete irmãos entrassem. Mal tinham acabado de entrar, ouviram fortes golpes na porta: era o Gigante que regressava !
A mulher escondeu as crianças embaixo do armário e correu para abrir a porta.
O Gigante entrou. Era um ser enorme, de aspecto horrível. Logo que passou pela porta, começou a farejar de um lado e de outro, desconfiado, cheirando com prazer e apetite:
__ Cozida ou ensopada. Aqui tem cheiro de deliciosa criançada !
Dizia isso e lambia os beiços.
__ Imagine, nada disso ! É o cheiro da janta __ disse a esposa, tremendo de pavor.
Mas o Gigante não se deixava enganar, pois conhecia bem demais o cheiro da carne humana.
__ Assadinhas ou fritinhas. Aqui tem o cheiro de criancinhas !
E lambia os beiços.
Guiando-se pelo faro, foi em direção ao armário e, com as enormes mãos, arrancou de lá os sete irmãos, um por um, mais mortos do que vivos pelo medo.
__ Muito bem ! Aqui tem uma ótima refeição para amanhã.
E começou a afiar o facão.
Já tinha agarrado o pescoço do irmão mais velho quando a mulher falou :
__ Por que você quer matá-los nesta noite ? A janta já está pronta!
__ Tem razão, minha velha __ resmungou o Gigante. É melhor economizar, portanto deixá-los-ei para amanhã, é melhor que descansem um pouco.
A mulher do Gigante suspirou aliviada. Levou as crianças para dormir no quarto em que estavam suas sete filhas, sete meninas muito feias e cruéis, como o pai.
Assim, dormiriam em uma larga cama as sete garotinhas. E em uma cama igual, ao lado, os sete irmãozinhos. Polegar reparou que as filhas do Gigante usavam suas coroas de ouro mesmo enquanto dormiam.
Receando que o malvado mudasse de idéia e decidisse matá-los naquela mesma noite, o pequeno pegou seu gorrinho e os de seus irmãos e os colocou na sua cabeça e na dos queridos irmãos. Estava feita a troca.
A certa altura o Gigante acordou, arrependido por ter adiado a matança. Agarrou o facão e foi ao quarto das filhas, no escuro.
Tateando, aproximou-se da cama em que dormiam os sete irmãos. Polegar sentiu a enorme mão do Gigante tocar em seus cabelos e na coroazinha e, em seguida, o horroroso exclamou:
__ Meu Deus ! O que estava para fazer ? Por pouco quase degolei minhas próprias filhotas !
Aproximou-se da outra cama, estendeu a mão, sentiu os gorrinhos de lã rústica e riu.
E, sem dó, cortou de uma vez só as sete gargantas. Depois voltou para a cama, para continuar o sono interrompido. Bastaram alguns minutos, e já estava roncando forte.
Com muito cuidado, o Pequeno Polegar acordou os irmãos e contou-lhes o que acontecera. Falou da troca dos gorros com as coroas para enganar o Gigante, e concluiu:
__ Devemos fugir imediatamente, antes que seja tarde !
Silenciosamente, os coitadinhos saíram daquela casa e foram para a floresta. Andaram a noite toda, sem saber bem para onde ir. Caminhavam rapidamente, para escapar da fúria do terrível Gigante.
Na manhã seguinte o Gigante acordou e, antes de mais nada, foi pegar suas vítimas para cozinhá-las.
Imaginem só como ficou, ao perceber que havia degolado suas amadas filhinhas e que os sete guris tinham desaparecido !
Cego de raiva, calçou suas botas mágicas, que a cada passo alcançavam sete léguas, e partiu para a perseguição. Dali a pouco já estava bem próximo dos fugitivos.
Polegarzinho, sempre alerta, viu que ele estava chegando e, sem perder a calma, mandou os irmãos se esconderem em uma caverna ali pertinho.
E lá vinha o Gigante, cada vez mais perto dos indefesos meninos.
Andara muito, e já começava a se cansar. Precisou, então, parar e resolveu dar uma cochiladinha. E sabem onde ? Bem na frente da caverna em que estavam escondidos os irmãos.
Polegar pensou rápido e, aproveitando o sono do inimigo, mandou os outros seis fugirem. Depois, aproximou-se do Gigante e, com muito cuidado para não acordar o guloso, descalçou-lhe as botas mágicas.
Eram imensos aqueles calçados do Gigante, mas, por serem mágicos, logo se ajustaram aos pés pequenininhos do novo dono.
__ Agora sim ! __ disse decidido. __ Andarei pelo mundo até encontrar um modo de melhorar nossas vidas.
Partiu, calçado com as botas que, a cada passo, percorriam sete léguas. Andou muito, muito mesmo, mais que o próprio Gigante. Após algumas horas, chegou a um reino distante, que estava em guerra.
Logo soube que o rei dali recompensaria com uma fortuna a pessoa que lhe trouxesse qualquer informação sobre as tropas e as batalhas. Esperto como era, Polegar foi para a região do combate, auxiliado pelas botas velozes.
Quando retornou, levou excelentes informações para o rei que, muito satisfeito, pagou-lhe o combinado. E ainda lhe deu mais algumas centenas de moedas.
No dia seguinte, Polegarzinho calçou de novo as botas mágicas e, em um piscar de olhos, alcançou a cabana dos pais, onde foi acolhido com enorme alegria por todos, inclusive pelos seus irmãos, que tinham conseguido voltar.
Assim, graças ao pequeno e inteligente Polegar, todos viveram felizes desde aquele , com muita fartura. Charles Pernault
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O SELVAGEM ANIMAL
Em uma casa muito pobre e bem distante da Capital, num lugarejo revestido com muita mata, ainda natural, vivia o Senhor Tabajara com sua esposa e suas três filhas. As meninas, lindas, com idades distantes uma da outra em dois anos, em média, raramente saiam do alcance dos pais, até porque não teriam mesmo condições alguma em se afastarem de casa para lugar algum, em virtude da distância que estavam da Cidade, tão pouco teriam o recurso necessário para sair, pois tudo ao redor, era feito a pé.
O pai, que muito zelava por todas as três filhas não as deixava afastarem-se do casebre onde viviam pois os bichos selvagens, cobras, raposas, lobos... não eram muito difíceis de serem vistos pelos arredores.
A esposa, absolutamente dedicada ao lar, fazia suas rotinas constantes em zelar por tudo que estava sob sua responsabilidade do lar; cozinhava, costurava, lavava, plantava suas hortaliças para auxiliarem no paladar dos alimentos e na sua conservação.
O Senhor Tabajara, vivia de vender os artesanatos e invenções que criava no rincão do sertão onde morava e essas vendas limitavam-se a Cidadezinha mais próxima, único local que tinha mais facilidade de acesso, graças a sua carroça, feita com suas próprias mãos, puxada por seu cavalo Raio de Sol e que assim foi batizado pelo dourado pelo que o cobria.
E essa era a rotina da família, que se seguia ano a ano.
Em um certo dia, seguindo trilhas, chegou um cavaleiro junto ao casebre onde vivia o Senhor Tabajara e toda a sua família e após ser convidado a entrar para tomar o cafezinho fresco, mas muito quentinho, feito pela Senhora Severina surpreendeu muito a todos, com uma proposta de compra irrecusável pelas três filhas do Senhor Severino, que deixaria a pobreza em tempo jamais conquistado por ninguém, quando lhe foi apresentada uma mala, com uma grande quantia de dinheiro para quitar o valor que ofertava ao Severino em troca de suas filhas.
Num primeiro momento, Severinho, desesperado com a proposta que recebeu, respondeu ao cavaleiro, que não poderia dispor de suas filhas por dinheiro algum, que elas eram a sua verdadeira razão de ser e viver.
Porém, ao responder o que seria óbvio a um bom pai, o cavaleiro não lhe deixou muita alternativa a escolher, pois afirmava que iria levar as meninas e que ao Senhor Severino bastava apenas aceitar e acatar a ordem, com a entrega da mala, repleta de dinheiro.
Ao verificar a demora na resposta pela venda das filhas ao cavaleiro, insistiu o cavaleiro :
__ Vai me vender ? Se não vai, acho melhor decidir logo, pois de qualquer forma irei levá-las, porém, se me vender as meninas o deixarei com vida !
__ Sim, vendo !
Essa foi a resposta imediata que foi dada ao cavaleiro, pelo Severino, assim que percebeu a possibilidade da perda de sua própria vida.
E, anos se seguiram, na tristeza e melancolia que manteve ao viver com Severina, sabendo que já podia comprar de tudo o que precisava quando chegava na Cidade, e poder alimentar e alimentar bem e tratar bem ao Joaquim, que nasceu após dois anos ao rapto/venda das meninas, Rosa, Quitéria e Flora.
E esse segredo se manteve até a maioridade de Joaquim, o caçula, e único filho homem que teve com Severina.
Em sua maioridade, já com um estudo avançado em relação aos pais, Joaquim ficou sabendo do passado do pai e mãe, e da existência das irmãs.
Indignado. Completamente indignado, já vivendo na Cidade onde encontrava-se com muito conforto junto aos pais, decidiu sair de casa e procurar pelas irmãs. Não pensou duas vezes, e seguiu.
Com as malas prontas, e seguindo mundo afora, numa cidade vizinha, procurou por informações da existência de três moças, com nomes: Flor, Quitéria e Rosa.
Sim, conheço a Flor !, respondeu o primeiro homem que foi perguntado.
Ela mora na Rua XV de Novembro, bem no Centro, no calçadão.
Atônito, Joaquim não restou-se cansado para lá chegar e deparar com a mais velha das irmãs.
Contando tudo que sabia, a irmã não se conteve em alegria, e apresentou o marido, que mantinha uma nobre posição na Cidade vizinha àquela em que passou toda a sua vida, desconhecendo a alegria da existência das irmãs.
Sua irmã, Flor, compreendendo a razão da saída do irmão de sua casa, e a rápida visita recebida, pois Joaquim após comemorar a parcial vitória, queria seguir procurando as outras duas irmãs, após ter conhecido Vitor e Vitória, seus sobrinhos.
Seguiu procurando na cidade vizinha, pois a lógica seria que com tantas dificuldades de acesso a quase 20 anos atrás, naturalmente as demais irmãs só poderiam estar em cidades vizinhas.
E assim foi, quando chegou no lar de Rosa, a irmã do meio, após investigação e questionamentos variados a quase todos os habitantes daquela nova cidade.
Rosa ficou ciente de todo o passado que viveu seu pai e de tudo que a ela era desconhecido, e lhe apresentou o marido, um forte comerciante da Cidade, que de tudo tinha e de tudo vendia e que dinheiro não lhe faltava, além de ter visto a Sofia, sua mais nova sobrinha.
Lógico, seguindo para a próxima Cidade, não deu outra ! Joaquim sabia que o cavaleiro que teria comprado as irmãs não poderia ir tão longe, com apenas um cavalo e três crianças.
E encontrando a sua terceira irmã, a caçula Quitéria, que lhe apresentou o marido, dono da fazenda mais próxima daquela Cidade, morando no Centro, fazendeiro de sucesso, ficou surpreso com a revelação feita na sua presença sobre a sua esposa Quitéria, e a sua relação de parentesco com Joaquim.
E, no final dessa busca insistente de encontrar o paradeiro de suas irmãs de sangue, achou por bem retornar à casa do pai Tabajara e da mãe Severina, que teria feito tal negociação tão nefasta em troca de dinheiro, ou de, no mínimo, preservar sua própria vida e de sua esposa.
Ao retornar no lar em que foi tão docemente tratado e tão docemente zelado e educado pelos pais que carregaram esse segredo num triste amargor em suas almas, Joaquim chegou.
Seus pais não conseguiram conter a alegria de ver o retorno do filho, o único filho homem que tiveram, sem jamais esquecer as lembranças alegres da vida com as meninas, antes do sequestro.
E qual não foi a surpresa que ele contou ?
__ Nada, nada, nada....
Essa foi a resposta quando questionado por seus pais, se encontrou alguma das meninas.
__ Meninas, pai ?
Se existem, com certeza não seriam mais meninas.
__ Sim, desculpou-se o pai.
e a mãe...sem se conter...
Meu querido filho, perdoe a mim e a seu pai por esse segredo triste e doloroso.
Mas, após verificar a saudade causada a seus pais e sentir a mesma saudade deles, reconheceu que nada poderia mais dizer.
Se limitou a dizer :
__ Encontrei todas minhas três irmãs, e marcaremos uma grande e luxuosa festa para comemorar.
O choro se instalou no recinto que estavam. Após esse primeiro anúncio, limitou-se a dizer.
Pai e Mãe, eu já sou tio e vocês já são avós.
Conto : E quem quiser que conte outro...
Autora: Ana Simões de Alencar – 09/12/2014
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A BELA ADORMECIDA

Era uma vez, há muito tempo, um rei e uma rainha jovens, poderosos e ricos, mas pouco felizes, porque não tinham filhos.
__ Se pudéssemos ter um filho ! __ suspirava o rei
__ E, se Deus quisesse, que nascesse uma menina ! __ animava-se a rainha.
__ E, por que não gêmeos ? __ acrescentava o rei.
Mas os filhos não chegavam, e o casal real ficava cada vez mais triste. Não se alegravam nem com os bailes da corte, nem com as caçadas, nem com gracejos dos bobos da corte, e em todo o castelo reinava uma grande melancolia.
Mas, numa tarde de verão, a rainha foi banhar-se no riacho que passava no fundo do parque real. E, de repente, pulou para fora da água uma rãzinha.
__ Majestade, não fique triste, o seu desejo se realizará logo: daqui a um ano a senhora dará à luz, uma menina.
E a profecia da rã se concretizou. Alguns meses depois nasceu uma linda menina. O rei, louco de felicidade, chamou-a Flor Graciosa e preparou a festa de batizado. Convidou uma multidão de súditos: parentes, amigos, nobres do reino e, como convidadas de honra, as fadas que viviam nos confins do reino: treze. Mas, quando os mensageiros iam saindo com os convites, o camareiro-mor correu até o rei, preocupadíssimo.
__ Majestade, as fadas são treze, e nós só temos doze pratos de ouro. O que faremos ? A fada que tiver de comer no prato de prata, como os outros convidados, poderá se ofender. E uma fada ofendida...
O rei refletiiu longamente e decidiu:
__ Não convidaremos a décima terceira fada __ disse, resoluto. Talvez nem saiba que nasceu a nossa filha e que daremos uma festa. Assim, não teremos complicações.
Partiram somente doze mensageiros, com convites para doze fadas, conforme o rei decidira.
No dia da festa, cada uma delas chegou perto do berço em que dormia Flor Graciosa e ofereceu à recém-nascida um presente maravilhoso.
__ Será a mais bela moça do reino __ disse a primeira fada, debruçando-se sobre o berço.
__ E a de caráter mais justo __ acrescentou a segunda.
__ Terá riquezas a perder de vista __ proclamou a terceira.
__ Ninguém terá o coração mais caridoso que o seu __ afirmou a quarta.
__ A sua inteligência brilhará como um sol, comentou a quinta. Onze fadas já tinham desfilado em frente ao berço; faltava somente uma (entretida em tirar uma mancha do vestido, no qual um garçom desajeitado tinha virado uma taça de vinho) quando chegou a decima terceira, aquela que não tinha sido convidada por falta de pratos de ouro.
Estava com a expressão muito sombria e ameaçadora, terrivelmente ofendida por ter sido excluída. Lançou um olhar maldoso para a Flor Graciosa, que dormia tranquila, e disse em voz baixíssima:
__ Aos quinze anos a princesa vai se ferir com o fuso de uma roca e morrerá.
E foi embora, deixando um silêncio desanimador. Então aproximou-se a décima segunda fada, que devia ainda oferecer seu presente.
__ Não posso cancelar a maldição que agora atingiu a princesa. Tenho poderes só para modificá-la um pouco. Por isso, a Flor Graciosa não morrerá; dormirá por cem anos, até a chegada de um príncipe que a acordará com um beijo. Passados os primeiros momentos de espanto e temor, o rei, considerada a necessidade de tomar providências, instituiu uma lei severa: todos os instrumentos de fiação existentes no reino deveriam ser destruídos. E, daquele dia em diante, ninguém mais fiava, nem linho, nem algodão, nem lã. Ninguém além da torre do castelo.
Flor Graciosa crescia, e os presentes das fadas, apesar da maldição, estavam dando resultados. Era bonita, boa, gentil e caridosa. Os súditos a adoravam.
No dia em que completou quinze anos, o rei e a rainha estavam ausentes, ocupados numa partida de caça. Talvez, que sabe, em todo esse tempo tivessem até esquecido a profecia da fada malvada.
Flor Graciosa, porém, estava se aborrecendo por estar sozinha e começou a andar pelas salas do castelo. Chegando perto de um portãozinho de ferro que dava acesso à parte de cima de uma velha torre, abriu-o, subiu a longa escada e chegou, enfim, ao quartinho.
Ao lado da janela estava uma velhinha de cabelos brancos, fiando com o fuso uma meada de linho. A garota olhou maravilhada. Nunca tinha visto um fuso (instrumento de fiar, roliço e pontiagudo)
__ Bom dia, vovozinha !
__ Bom dia a você, linda garota !
__ O que esta fazendo ? Que instrumento é esse ?
Sem levantar os olhos do seu trabalho, a velhinha respondeu com ar bonachão:
__ Não está vendo ? Estou fiando !
A princesa, fascinada, olhava o fuso que girava rapidamente entre os dedos da velhinha.
__ Parece mesmo divertido esse estranho pedaço de madeira que gira assim rápido. Posso experimentá-lo também ?
Sem esperar resposta, pegou o fuso. E, naquele instante, cumpriu-se o feitiço. Flor Graciosa furou o dedo e sentiu um grande sono. Deu tempo apenas para deitar-se na cama que havia no aposento, e seus olhos se fecharam.
Na mesma hora, aquele sono estranho se difundiu por todo o palácio.
Adormeceram no trono o rei a rainha, recém-chegados da partida de caça.
Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinha no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado.
Adormeceu o cozinheiro que assava a carne e o servente que lavava as louças; adormeceram os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que enrolavam seus cabelos.
Também o fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras parou de queimar, parou também o vento que assobiava na floresta. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio.
Em volta do castelo surgiu rapidamente uma extensa mata. Tão extensa que, após alguns anos, o castelo ficou oculto. Nem os muros apareciam, nem a ponte levadiça, nem as torres, nem a bandeira que pendia na torre mais alta.
Nas aldeias vizinhas, passava de pai para filho a história de Flor Graciosa, a bela adormecida que descansava, protegida pelo bosque cerrado. Flor Graciosa, a mais bela, a mais doce das princesas, injustamente castigada por um destino cruel.
Alguns, mais audaciosos, tentaram sem existo chegar ao castelo. A grande barreira de mato e espinheiros, cerrada e impenetrável, parecia animada por vontade própria; os galhos avançavam para cima dos coitados que tentavam passar: segurando-os, arranhando-os, até fazê-los sangrar, e fechavam as mínimas frestas. Aqueles que tinham sorte conseguiam escapar, voltando em condições lastimáveis, machucados e sangrando. Outros, mais teimosos, sacrificavam a própria vida.
Um dia, chegou nas redondezas um jovem príncipe, bonito e corajoso. Soube pelo bisavô a história da bela adormecida que, desde muitos anos, tantos jovens procuravam em vão alcançar.
__ Quero tentar eu também a aventura __ disse o príncipe aos habitantes de uma aldeia pouco distante do castelo.
Aconselharam-no a não ir.
__ Ninguém nunca conseguiu !
__ Outros jovens, fortes e corajosos como você, falharam...
__ Alguns morreram entre os espinheiros...
__ Desista !
__ Eu não tenho medo __ afirmou o príncipe. __ Eu quero ver Flor Graciosa.
No dia em que o príncipe decidiu satisfazer a sua vontade se completavam justamente os cem anos da festa do batizado e das predições das fadas. Chegara, finalmente, o dia em que a bela adormecida poderia despertar.
Quando o príncipe se encaminhou para o castelo, viu que, no lugar das árvores e galhos cheios de espinhos, se estendiam aos milhares, bem espessas, enormes carreiras de flores perfumadas. E mais: aquela mata de flores cheirosas se abriu diante dele, como para encorajá-lo a prosseguir; e voltou a se fechar logo, após sua passagem.
O príncipe chegou em frente ao castelo. A ponte de entrada estava abaixada e dois guardas dormiam ao lado do portão, apoiados nas armas. No pátio havia um grande número de cães, alguns deitados no chão, outros encostados nos cantos; os cavalos que ocupavam as estrebarias dormiam em pé.
Nas grandes salas do castelo reinava um silêncio tão profundo que o príncipe ouvia a própria respiração, um pouco ofegante, ressoado naquela quietude. A cada passo do príncipe se levantavam nuvens de poeira.
Salões, escadarias, corredores, cozinha... Por toda a parte, o mesmo espetáculo: gente que dormia nas mais estranhas posições. E todos exibiam as roupas que haviam sido moda exatamente há cem anos.
O príncipe perambulou por longo tempo no castelo. Enfim, achou o portãozinho de ferro que levava à torre, subiu a escada e chegou ao quartinho em que dormia Flor Graciosa. A princesa estava tão bela, com os cabelos soltos espalhados nos travesseiros, o rosto rosado e risonho, que o príncipe ficou deslumbrado. Logo que se recobrou, inclinou-se e deu-lhe um beijo.
Imediatamente, Flor Graciosa abriu os olhos e olhou a sua volta, sorrindo:
__ Como eu dormi ! Agradeço por você ter chegado, meu príncipe!
Na mesma hora em que Flor Graciosa despertava, o castelo todo também acordou. O rei e a rainha correram para trocas os trajes de caça empoeirados, os cavalos na estrebaria relincharam forte, reclamando suas rações, os cães no pátio começaram a ladrar, os pássaros esvoaçaram, deixando seus esconderijos sob os telhados e voando em direção ao céu.
Acordou também o cozinheiro que assava a carne; o servente, bocejando, continuou lavando as louças, enquanto as damas da corte voltavam a enrolar seus cabelos. Também dois moleques retomaram a briga, voltando a surrar-se com força.
O fogo das lareiras e dos braseiros subiu alto pelas chaminés, e o vento fazia as folhas das árvores murmurarem.
Logo, o rei e a rainha correram à procura da filha e, ao encontrá-la, agradeceram, chorando, ao príncipe por tê-la despertado do longo sono de cem anos.
O príncipe, então, pediu a mão da linda princesa que, por sua vez, já estava apaixonada pelo seu valente salvador.
"Irmãos Grimm"
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